28 de dez de 2018

Profecias, a perspectiva do Antigo Testamento e a perspectiva atual


Os profetas do Antigo Testamento ousavam enfrentar toda uma nação e pagar o preço que fosse necessário para anunciar as Palavras do Eterno.

Isaias fazia previsões apocalípticas e pregava sobre o juízo com profecias fúnebres sobre os destinatários.

Jeremias era engajado nas questões sociais, não usava abstrações ou generalizações para denunciar os abusos dos ricos, pois os identificava e assim se tornou adversário de toda uma classe de líderes e religiosos em Israel. Ele experimentou o ódio do rei e descrédito de seus pares profetas em um jogo de inversões no qual ele era taxado de falso profeta porque profetizava a verdade, a ruína do povo, enquanto os falsos profetas agradavam o rei e se mantinham confortáveis em suas posições na corte, mas sendo falsos profetas, enganavam-se uns aos outros.

No cativeiro da Babilônia, Ezequiel revelou suas memórias, anunciou a revelação divina do Eterno enquanto vivia entre escravos e usando a ironia profetizou sobre a queda da Babilônia. Sua profecia era de restauração de Israel, utilizava simbologias usando o reino animal e fazia lamentações fúnebres.

 O ministério dos profetas no Antigo Testamento mantinha as tribos unidas, um tanto civilizadas e a convivência era facilitada por esse agente social encarregado de proclamar a vontade de Deus. Essas proclamações e todo o cuidado do profeta com o povo era feito por meio das profecias, fossem elas orais ou escritas.

O mistério de profetizar o que acontecerá no futuro era creditado a Deus caso se cumprisse a profecia e assim o profeta era confirmado como verdadeiro se sua profecia fosse verdadeira, mas caso a profecia não se cumprisse o profeta passaria a ser considerado um falso profeta por sua profecia ser falsa e a origem da profecia era atribuída a ele mesmo.

Hoje em dia pessoas se dizem profetas ou adivinhos, mas caso suas palavras não se cumpram elas alegam que “Deus mudou de ideia”. Por isso há muitos que desacreditam da profecia na atualidade.
Pessoas são manipuladas por falsos profetas ou falsas profecias, tomam decisões muito importantes e arcam com consequências das mais diversas, como falência nos negócios, relacionamentos e até casamentos precipitados, trabalho sacerdotal sem vocação entre outros.

Vertentes teológicas não acreditam na profecia na atualidade, assim como não acreditam no milagre da cura e da glossolalia por exemplo. Pautam-se na crença de que somente as escrituras sagradas são a revelação do Eterno e não é necessário qualquer adicional, considerando tais fenômenos puramente humanos e não espirituais.

Outras correntes afirmam que o dom de profetizar continua vivo e serve para a edificação da Igreja. Essa afirmação está de acordo com os escritos do Novo Testamento, mais precisamente do Apóstolo Paulo, mas tem sido subvertida e utilizada para autopromoção e também para massagear os egos de pessoas carentes e muitas vezes sem qualquer outra esperança se não na busca pela manifestação do sobrenatural.

Atualmente a profecia normalmente não é feita de maneira negativa, principalmente por que vivemos numa era de incessante busca pelo bem estar e pela promoção pessoal e a ultima coisa que as pessoas querem é fazer inimigos poderosos.

Outra forma de se observar a profecia em nossos dias é pela ótica positivista de que devemos determinar algo com fé e autoridade, dando a essa atitude também o nome de profecia, mas quando não ocorre conforme a “determinação” a alegação varia entre a de que “não era a vontade de Deus” ou a de que “faltou fé”. Em todo caso a origem é humana e a profecia, apesar de não poder chamar de charlatanismo, classificaria como uma péssima escolha de nome, pois na verdade é um equivoco teológico chama-la de profecia, pois se trata de uma oração com fé. Concluindo esse ponto sobre profetizar com fé acrescento que a exemplo dos profetas do Antigo Testamento uma profecia é a vontade de Deus revelada aos homens e não a vontade dos homens revelada a Deus, pois isso, novamente, se chama oração.

Há muitos outros perigos na atualidade como, por exemplo, anunciar a própria Palavra de Deus revelada nas escrituras, o que contraria muitos segmentos da sociedade e suas práticas, além disso, em muitos países as escrituras são proibidas de serem anunciadas e muitos cristãos padecem por isso.

Os profetas da atualidade são os homens e mulheres que não temem a morte e anunciam a Palavra, por amor a Deus, abrindo mão do próprio bem estar e nunca, em hipótese alguma, se deixam levar pelos agrados desta vida para fazer “profecias agradáveis” aos reis. 

24 de dez de 2018

Autocontrole

Citado por Paulo como virtude cristã, juntamente à hospitalidade, benignidade, sobriedade, justiça e piedade. Tito 1:8


Por quê?

Deus criou o homem para que dominasse sobre todos os animais da terra, sobre todas as aves dos céus e sobre toda a criação, de maneira que serviria a somente um Senhor, exercendo assim o auto-controle.

Citado por Pedro juntamente de conhecimento, perseverança e piedade. 2 Pedro 1:6.

Observe que Paulo e Pedro tiveram ensinamentos distintos, Pedro aprendeu o Evangelho diretamente com Jesus, de diferente forma, Paulo era um Fariseu, pertencendo ao Sinédrio, formado no colégio Gamaliel, era um doutor da Lei, mas ambos descrevem como parte fundamental do caráter cristão.

Do grego: Egkrateia, cuja raiz “kratos” significa “ter domínio sobre”, “exercer poder sobre”, “ter autoridade sobre”. O termo se relaciona à autoridade.

Sinônimos: Domínio Próprio e Temperança

Aplicação: Disciplinar-se corpo e mente, para superar a dificuldade de concentração, ou para não se precipitar em um momento de ira, ou até mesmo resistir a impulsos naturais.

Podemos entender melhor a aplicação prática do "domínio próprio" pensando no oposto, ou seja, quem não tem o "domínio próprio" é certamente dominado por algo.

Pode ser dominado pela Paixão e assim cometer pecados, tais como, Prostituição, Impureza e Lascívia.

Dominado por uma Circunstância, pode desesperar-se e então se valer de idolatria ou feitiçaria.

Se for dominado pela vaidade, sempre tentará superar o próximo, podendo causar: Inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissenções, facções e invejas.

Caso não domine o próprio ventre: Glutonarias e Bebedices.

Conforme está escrito em Gálatas capítulo 5 versículos 19 e 20:

Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, prostituição, impureza, lascívia,Idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, Invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus

É preciso então escolher os bons sentimentos e as boas atitudes, para os quais não há condenação e não se deixar dominar pelos impulsos para não ter que arcar com as suas consequências.  



21 de dez de 2018

O que é o Natal?


Todos nós sabemos que a comemoração do Nascimento do Messias é uma festa digna, mas cheia de distorções, vamos falar só um pouquinho sobre isso, porque a mensagem mais importante é que Jesus Nasceu.

"Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o governo estará sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz."

IS 9:6

Mesmo que a data esteja errada, o que não ocorre por simples equivoco, pois os Romanos que instituíram a data no século IV, o fizeram porque comemoravam a festa da chegada do inverno, é uma excelente oportunidade para conscientizarmos as pessoas sobre a necessidade de aprender de Deus, aprender sobre Jesus Cristo, não apenas sua história, mas aprender a como servi-lo.

Jesus Nasceu, de maneira milagrosa, cresceu e mostrou o caminho para Deus, entregou-se como sacrifício expiatório, ressuscitou e foi nos preparar um lugar, recebeu um nome que foi posto pelo Pai acima de todo nome, dividiu a nossa história, e ainda hoje tem feito grandes coisas em nosso meio, assim cremos. Infelizmente sua mensagem e história são colocadas por muitos em segundo plano.


O Papai Noel - Estudiosos afirmam que a figura do "bom velhinho" foi inspirada num bispo chamado Nicolau, que nasceu na Turquia em 280 d.C. O bispo, homem de "bom coração", costumava ajudar as pessoas pobres, deixando saquinhos com moedas próximas às chaminés das casas. Foi transformado em santo (São Nicolau) pela Igreja Católica, após várias pessoas relatarem milagres atribuídos a ele. A associação da imagem de São Nicolau ao Natal aconteceu na Alemanha e espalhou-se pelo mundo em pouco tempo. Nos Estados Unidos, ganhou o nome de Santa Claus, no Brasil de Papai Noel e em Portugal de Pai Natal.

É muito triste que crianças sejam ensinadas a escrever cartinhas para o Papai Noel e nem ao menos saber o significado de Messias, ou Cristo ou ainda serem ensinadas a serem comportadas para ganhar presentes, quando na verdade deveriam ser formadas segundo os preceitos de Deus.


Árvore de Natal - Sua origem mais remota está ligada às civilizações antigas e às festas pagãs em comemoração ao solstício de inverno no Hemisfério Norte, onde temos o dia mais curto e a noite mais longa do ano. Enfeitar árvores é um ritual antiquíssimo, presente em praticamente todas as culturas e religiões pagãs, para celebrar a fertilidade da natureza. Atribui-se a São Bonifácio, no século VIII, sua origem. Chegado à Alemanha, como missionário, substituiu o culto a Odin pela árvore de Natal. 

É tradição em muitas famílias montar árvores de natal e colocar os presentes embaixo dela, mas como aprendi há muitos anos atras que não deveria fazê-lo e mantive desde então a decisão de não enfeitar a nossa casa com árvores de natal e demais adornos natalinos, embora não fique pressionando os amigos e parentes para fazerem igual.

"Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente seguro em seu próprio ânimo. Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz. O que come para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e o que não come para o Senhor não come e dá graças a Deus."

Rm 14:5-6


Presépio - uma forma de encenação do nascimento de Jesus, utilizando esculturas que simbolizam José e Maria, além do próprio menino Jesus e os animais que estariam com eles no estábulo. A criação do primeiro presépio é atribuída a São Francisco de Assis, que o teria construído em 1223, na cidade italiana de Greccio. Ele queria mostrar aos camponeses como tinha sido a noite do nascimento de Jesus, mas não sabia como fazer. Foi então que teve a ideia de pegar argila e montar vários bonecos para simbolizar os personagens daquela noite tão simbólica quanto sagrada para os cristãos.

Embora eu não tenha o hábito de expor a encenação do nascimento do messias como algumas pessoas o fazem, também não vejo qualquer problema em fazê-lo, desde que seja apenas uma obra de arte e nada mais que isso, pois não deve tomar o lugar no coração como um ídolo, 


O mais importante é que Jesus nasceu e que neste Natal possamos engrandecer o seu nome acima de tudo e de todos. 

17 de dez de 2018

A Doutrina Social da Igreja na época dos pais da Igreja

As características da Doutrina Social da Igreja já estavam presentes entre os primeiros cristãos que por conta disso sofreram discriminação e perseguição por tratarem os pobres e os menos favorecidos com solidariedade em um tempo em que era comum o desprezo e o abuso pelos chamados “nobres”, apesar disso, esses princípios continuaram a ser um norte para a Igreja durante o período dos pais da Igreja.

A respeito da Dignidade Humana, Tertuliano disse que se o ser humano recebeu gloria de Deus no toque, recebeu ainda mais gloria com o sopro de vida em seu ser. O autor africano atribui grandes merecimentos por meio das maravilhas operadas por Deus em sua criação. Gregório de Nissa, que vivia em meio a um povo que não tinha princípios cristãos de solidariedade, subsidiariedade e bem comum, entendia que isso se devia ao fato do pecado que deformou o ser humano e o afastou desses princípios trazendo consigo a injustiça, a divisão e a falta de amor. Basilio de Cesareia atestava que conforme o texto de Mateus 25:35, aqueles que saciam a fome do próximo estão caminhando para a vida eterna, ou seja, para entrarem no Reino dos Céus. Gregório de Nazianzo denunciava, no seu tempo, a opressão dos pobres por aqueles que detinham o poder e os meios econômicos, que acumulavam riquezas sem se importar com quem não tem nada, nem com órfãos ou viúvas.

Sobre o Bem Comum, Joao Crisóstomo entendia que as coisas que foram criadas por Deus não poderiam pertencer a suas criaturas por elas se apropriarem delas, mas tudo o que somos devemos a ele, junto com a vida, o respiro, a luz, o ar e a terra. Quando a pessoa fala de algo como se fosse dela é algo sem sentido. O verdadeiro autor da criação é Deus e reconhecermos sermos estimados dignos instrumentos em suas mãos. Para Agostinho os dons que Deus nos concedeu são para todos os homens, não por mérito pessoal, mas porque toda a criação é obra Dele, Ele não deve nada a ninguém, mas dá tudo ao ser humano de forma gratuita e por isso os bens não deveriam ser apropriados.

Quanto a Subsidiariedade, João Crisóstomo coloca em primeiro lugar que o pai de família esteja ligado com seus familiares, porque cada um deve preocupar-se com a salvação do próximo, de maneira que todos tem que conduzir uma ovelha às pastagens convenientes. É preciso cuidar do bem do outro, pagando todas as dívidas financeiras, mas também estar em dia com aquilo que nós devemos a Deus, para que na nossa salvação sejamos bons para o próximo, afim de que a salvação seja dada quando procuramos o bem comum. Teodoro de Ciro disse que o governo é dado por Deus como uma forma de curar as feridas causadas pelo pecado. Assim como os pais tem os meios e por isso são responsáveis pelos seus filhos ou ainda na Igreja há alguns com mais responsabilidades e outros são a eles subordinados.

A Participação está na DSI como resultado da Subsidiariedade e a carta a Diogneto diz que assim como a alma esta no corpo, os cristãos estão no mundo, fazendo o mundo melhor do que as pessoas concebiam, testemunhando um modo de vida admirável e paradoxal, não alheios a vida social. Aristides de Atenas, um apologista, afirma que os cristãos aguardam a ressurreição dos mortos e a vida do século vindouro, enquanto tem os mandamentos do Senhor Jesus, gravados em seus corações.

A Solidariedade é colocada como princípio para uma sociedade de igualdade e dignidade nos direitos, sendo o caminho para a unidade de todos os povos. Estamos todos conectados pelo mundo por meio da tecnologia digital, mas as desigualdades ainda são muito fortes, servindo como forma de manipulação, corrupção e opressão, sendo nacionais e muitas vezes internacionais. Tertuliano fala de uma espécie de caixa comum, onde todos poderiam levar ali quanto pudessem. Era sua modesta contribuição mensal e cada um oferecia de forma espontânea. A Comunidade ajudava também os condenados às minas, deportados nas ilhas e aqueles jogados no cárcere, de maneira que os pagãos diziam “como eles se amam entre eles”. Com quase a mesma referência Justino descreve que a comunidade se realizava em favor dos mais necessitados, sejam órfãos, viúvas, prisioneiros ou mesmo estrangeiros de passagem. Desta forma, a pessoa deveria ser amada ao ponto de se dar a vida por ela, pois pelo depoimento deles a ação das comunidades cristãs visava a caridade para com todos. Tertuliano fala da caridade de Jesus com os sofredores, através da paciência. Cipriano, seguindo Tertuliano dizia que era preciso estar com Cristo para alcançar a Deus. Com Cristo é possível viver o a solidariedade do sofrimento. 

Concluímos com a afirmação de que os pais da Igreja tiveram não só a compreensão dos problemas sociais, como também o engajamento no trabalho para ajudar e socorrer as vítimas dos infortúnios, sempre baseados na Palavra e tendo como principal paradigma a Jesus Cristo. A Palavra de Deus nas Escrituras Sagradas e a atuação de Cristo iluminam a Igreja no seu discurso e atuação no mundo de hoje, onde ela é convidada a reforçar o valor da dignidade humana, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade, a participação e a solidariedade como princípios da Doutrina Social da Igreja.


14 de dez de 2018

O mito da interferência da Igreja sobre o Estado e seu ateísmo velado

É comum atualmente ouvirmos ativistas de diversos segmentos da sociedade com práticas contrárias às diretrizes mais básicas do cristianismo advertirem para o fato de o Estado ser laico e por conta disso não ser correto ter interferência dos preceitos cristãos. No entanto um estado laico e democrático deve ser regido conforme o consenso da maioria e não baseado nos conceitos e filosofias de uma minoria. As minorias precisam ter os seus direitos inalienáveis como seres humanos preservados pelo Estado e isso se deve ao fato de estar totalmente de acordo com os princípios cristãos de justiça, compaixão e caridade, não por acaso, mas por sermos uma nação majoritariamente cristã.

Os representantes cristãos do poder legislativo são severamente atacados como retrógrados, alienados, antiquados e até mesmo a Bíblia Sagrada sofre ataques de grupos que se sentem constrangidos pelas demandas dos cristãos e por vezes até mesmo reiteram seu desprezo pelos que professam sua fé em Deus e em Cristo. Há claramente uma ideia injusta de que os valores cristãos devem ser deixados de lado enquanto os pensamentos dos opositores devem ser respeitados e colocados em prática. Essa ideia não é de um Estado laico, mas de um Estado Ateu, como na Europa Oriental, em países como a Albânia em que o cristianismo sofreu severa perseguição e havia a idolatria ao partido que governava.

Essa história não começou a pouco tempo, mas há mais de dois mil anos, quando o Império Romano dominava o oriente médio e em Jerusalém havia um grupo de homens e mulheres que anunciavam um novo Rei, eles foram perseguidos e mortos pelo Estado. Assim continuou por mais três séculos até que o Estado assimilou a doutrina desses homens e o Estado passou a ser cristão por decreto do Imperador Constantino. No século IV a Igreja passou a ser uma instituição reconhecida pelo Estado e se desenvolveu dentro do Império Romano.

Com a queda do Império Romano no século V, a Igreja não desapareceu, mas continuou sendo uma instituição forte, no século VIII, por exemplo, o Papa Zacarias havia tirado Childerico do trono francês para coroar Pepino, o Breve, supostamente abrindo precedente para o Papa nomear e depor reis. Na prática não foi o que aconteceu, pois pouquíssimos Papas tiveram realmente destaque e autoridade para intervir em assuntos do Estado, pois na maior parte do tempo os papas eram na verdade nomeados para atender as demandas de determinados partidos e na maioria dos casos para atender os interesses do rei.

No século X foi estabelecido o Sacro Império Romano e toda a cristandade era governada por um imperador que regia tanto o Estado como a Igreja. O Papa figurava como líder máximo da Igreja, mas quem articulava quem seriam os papas era o Estado. A história conta que no século XI o Rei Henrique III nomeou três papas, sendo eles o papa Bento IX, que foi expulso de Roma, depois foi nomeado Clemente II, na tentativa de recuperar a dignidade da Igreja, mas foi preciso ainda nomear outro papa, agora foi nomeado seu primo, Bruno, que utilizou o nome Leão IX. A partir de então surgiu um forte sentimento de repudio ao controle do Estado sobre a Igreja, isso porque havia a preocupação de o imperador ser mal e nesse caso não se saberia o que poderia acontecer com a Igreja.

Durante o reinado de Henrique IV e o papado de Gregório VII, foi redigido um documento chamado Dictatus, que condenava o controle da Igreja pelo Estado. A história se passa durante o Feudalismo, período em que a autoridade era do senhor feudal e dos monarcas, sendo que todos deveriam estar debaixo da autoridade dos barões e dos reis, o mesmo acontecia com a Igreja. Esse documento foi um marco, pois é a declaração de independência da Igreja, indicando que o Imperador é quem deve prestar contas ao Papa e que o Papa só deve prestar contas a Deus. Ocorreu que morreu o arcebispo de Milão e imediatamente o Rei Henrique IV nomeou um novo bispo de sua confiança. Essa atitude contrariava o Dictatus, e por isso o Papa Gregório VII excomungou o Rei. Henrique IV então se humilhou perante o Papa que o perdoou, mas passado algum tempo voltaram a se enfrentar.

Foi Henrique V quem resolveu o dilema, na segunda tentativa, pois na primeira fora muito radical querendo que a Igreja renunciasse todas as suas terras em troca de sua liberdade, pois bem, na segunda tentativa propôs o acordo de que o Estado nomearia os bispos com base nos princípios do Feudalismo, que chamamos de Investidura Leiga e a Igreja precisaria concordar outorgando autoridade eclesiástica por meio de objetos dados aos clérigos, anéis, báculos ou cajados de pastor. Isso não impediu que o Estado e a Igreja voltassem a se ressentir no futuro, mas foi a melhor solução possível durante a idade média.

Ironicamente, Henrique VIII, no século XVI, foi quem separou a Igreja Inglesa da Igreja Católica Romana, fundando uma Igreja da qual ele mesmo seria o Regente Máximo, algo que perdura até hoje, tendo a atual rainha da Inglaterra como líder da Igreja Anglicana.

Muitos países, tais como França, os Estados Unidos e o Brasil tem em sua constituição artigos que impedem qualquer interferência da Igreja em suas decisões, assim como está assegurado o direito de todo cidadão ter sua fé e prática religiosa respeitados. No Brasil, no entanto, ocorre o seguinte fenômeno, quando a Igreja precisa usar um espaço público, ele pode ser recusado sob a alegação de que o Estado é laico, mas quando uma comunidade que não professa fé alguma pede para usar o espaço do Estado, ela é atendida, isso é um comportamento de Estado ateu e não de um Estado laico em que todos devem ser tratados com igualdade, sendo Igreja ou não.

10 de dez de 2018

O que faremos com as crianças?


Pouco se discute sobre o lugar ou o melhor método para lidar com as crianças em nossas reuniões e é realmente muito bom nos prepararmos para isso academicamente, pois não é justo com as nossas crianças que os pastores e líderes estejam despreparados para servi-los e assim não atenderem às suas necessidades durante a infância.

Ouvi muitos líderes dizerem que as crianças serão a Igreja de amanhã, mas isso não deveria significar que elas não são a Igreja de hoje e que não necessitam de atenção, o que ocorre de fato é que muitos líderes de Igrejas entregam os cuidados das crianças a pessoas despreparadas e não acompanham o programa da igreja local para as crianças. Não acredito que seja por desprezo, mas por despreparo de nossas lideranças.

As crianças serão a Igreja de amanhã somente se forem bem cuidadas, ministradas com toda diligência e devidamente pastoreadas como todas as outras “ovelhas do rebanho”. Para tanto, precisamos de líderes que entendam que as crianças são a Igreja de hoje e são também servos, adoradores e ministradores como os demais membros.

Crianças sempre estiveram envolvidas nas liturgias das Cerimônias no Antigo Israel, por exemplo, no livro de Êxodo 12:24-27, com a orientação para os Israelitas de que quando as crianças perguntassem sobre o motivo da celebração do Pessah, eles deveriam explicar sobre o livramento dos primogênitos dos Hebreus e a morte dos primogênitos dos Egípcios e assim a tradição oral seria passada de geração a geração e eles assim o fizeram.

Elas podem ter o seu espaço na reunião como os demais membros, pois muitos pensam que as crianças não são capazes de trazer um versículo para meditação, atuar ou apresentar uma dança com a devida competência, cantar ou tocar instrumentos com excelência, ajudar na limpeza, no acolhimento de convidados e tantos outros trabalhos como qualquer outro membro.

Existe é claro uma diferença muito grande entre as capacidades de cada criança, assim como entre os adultos, pois não se pode esperar que um membro recém-chegado a comunidade de fé explique um texto bíblico da mesma maneira que um membro mais antigo, formado em Teologia e com certa experiência em ensinar. Logo uma criança que cresce participando dos cultos e desenvolve as habilidades necessárias deve ter também a oportunidade de participar de maneira ativa. Cito o exemplo de Samuel que desde criança serviu no Templo ministrando diante do Senhor. (1 Sm 2:18).
Qual a melhor maneira de organizarmos os nossos cultos pensando nos resultados decorrentes desta estratégia?

Ramos (2008, p.79) orienta os líderes a elaborarem um culto inclusivo em que as crianças possam participar inclusive da mensagem e que esta seja de possível compreensão, para elas, além dos momentos de oferta, adoração e demais sacramentos para que cresçam compreendendo que participam do corpo e não tenham a impressão de que nunca foram bem vindas à nave da Igreja. Isso é possível, mas a aplicação prática é um grande desafio para nós que ainda precisamos evoluir como Igreja para produzirmos esse resultado e por isso acredito que perdurará o modelo em que parte do culto, por ser de difícil compreensão para as crianças, pois não são capazes de ficar quietos por horas ouvindo sermões e mesmo que fiquem quietos por obediência não compreenderão a mensagem, sendo assim, elas receberão atenção em outro espaço, não porque queremos “nos livrar delas”, mas porque elas precisam de atenção e de uma ministração que possam compreender e guardar em seus corações desde pequenos e infelizmente a Igreja Cristã Brasileira em geral não está pronta para fazê-lo como sugere o autor.

Um caminho viável é a elaboração de um culto semanal, mensal ou ao menos esporádico em que a dinâmica seja pensada prioritariamente para crianças e que os adultos possam cultuar junto com elas e desfrutar daqueles momentos com os filhos e serem ministrados de maneira simples e objetiva, com músicas cristãs de teor mais pedagógico e com muitas ilustrações, encenações, animações etc.

As crianças também devem ser evangelizadas, pois não devemos pensar apenas em como lidar com nossas crianças, mas podemos atrair a atenção de outras crianças e fazê-las sentirem-se a vontade em nosso meio promovendo eventos com brincadeiras e apresentações voltadas para elas. Evangelização não é somente para adultos e devemos encher os nossos cultos de crianças conforme as palavras de Jesus: “Deixai vir a mim as crianças, não as impeçais, pois o Reino dos céus pertence aos que se tornam semelhantes a elas.” (Mt 19:14).

7 de dez de 2018

Um pouco da História da Septuaginta

Muitas pessoas questionam a autenticidade da Bíblia, o Livro Sagrado dos Cristãos, e os argumentos geralmente são a falibilidade humana e as alterações tendenciosas feitas durante o processo de tradução dos manuscritos hebraicos para os mais variados idiomas tais como o grego, latim, siríaco, armênio, entre outros.

O processo de tradução, obviamente é complexo e exigiu a disposição e tempo de homens capazes, bem instruídos e no caso da Septuaginta, raramente encontrados nos séculos I aC., pois como se pode imaginar, a maior parte da população era analfabeta e pouquíssimas pessoas possuíam os recursos necessários para custear um processo de tradução.

Segundo conta a lenda judaico-cristã, a Septuaginta fora encomendada pelo Rei Egípcio Ptolomeu II, que primeiramente obteve as traduções da Torah e Tehilim, o livro de Salmos, feita na cidade de Alexandria, no Egito, com a intenção de terem os escritos sagrados dos Judeus, em grego, na sua biblioteca. Uma das possíveis razões para isso era o grande número de judeus residentes na cidade de Alexandria.

O nome Septuaginta significa do Latim Setenta, segundo a tradição porque fora traduzida por 72 rabinos, outra versão da história aponta para apenas cinco tradutores e 70 membros do sinédrio que apenas aprovaram a tradução.

Posteriormente, todos os demais livros dos judeus foram traduzidos para o grego, traduções não tão boas como as produzidas em Alexandria, mas foi concluída no século IV dC, a Septuaginta, o conjunto de livros dos judeus traduzidos do hebraico para o grego ou produzidos diretamente em grego como o caso de I e II Macabeus. 

O nome Septuaginta surgiu após a conclusão da obra, do latim Interpretatio septuaginta virorum, obviamente porque era a língua litúrgica da Igreja Romana, mas em grego o nome é hē metáphrasis tōn hebdomēkonta, que significa tradução dos setenta interpretes, abreviado normalmente como LXX.

No século XV, com a reforma protestante, o Canon Cristão ficou dividido em dois modelos, sendo um composto por todos os livros da Septuaginta e outro que, elaborado por Martinho Lutero, desconsiderou os livros Judite, Tobias, I e II Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc.

Atualmente críticos e historiadores avaliam a existência da Septuaginta conforme conta a tradição e alguns a consideram apenas um mito, em parte por não existir um fragmento e haverem apenas menções à sua estória de origem. A Septuaginta como conhecemos seria datada apenas do II ao IV século dC. No entanto, no Novo Testamento das 350 menções ao Antigo Testamento, ao menos 300 se referem à versão Grega, como por exemplo, em Mateus 4:4 o uso do vocábulo Deus, conforme a Septuaginta, ao invés de Senhor conforme a Torah ao referir-se a Deuteronômio 8:3.

A diferença de determinados vocábulos acontece pelo limitado conhecimento do grego koiné por parte dos tradutores, pela falta de um correspondente com o significado exato do original ou pela impossibilidade da compreensão de determinadas expressões por questões culturais como, por exemplo, um indivíduo é chamado no hebraico de nefesh, que significa literalmente garganta, mas que se compreende como o indivíduo pela crença de que foi pela garganta que se recebeu o fôlego de vida, enquanto no grego a palavra usada é psiché, alma, vida, pessoa, criatura.