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19 de out. de 2020

É preciso autoconhecimento e conhecimento do outro para promovermos a resiliência

O aconselhamento pastoral não deve ser semelhante ao processo terapêutico e científico que trata da pessoa assistida como um sintoma, uma patologia, um paciente assim como outros, segundo Rogers (2001) de uma forma pessoal e num relacionamento entre o aconselhador e a pessoa que está com alguma dificuldade, é preciso confiança, nesse processo o conselheiro não é apenas expectador, e também não é um solucionador, é alguém para ouvir, uma outra pessoa, esse processo de crescimento interpessoal é uma forma de se aprender a viver a vida de maneira congruente, ou seja, tendo autoconhecimento, uma definição de si próprio. 

No processo de autoconhecimento e de encontrar o sentido para a vida nos deparamos com situações que traumatizam e deformam os seres humanos, embora tenhamos estudos da psicanálise que apontam que tudo tem um motivo e que o ser humano em sua essência pode ser deformado e assumir características extremamente negativas devido às suas experiências traumáticas, como os estudos do pai da psicanálise Sigmund Freud, há outros estudos também da psicanálise que apontam que pessoas que passam pelos mesmos traumas são afetadas de formas diferentes. É o caso da logoterapia, desenvolvida por Viktor Frankl, um sobrevivente dos campos de concentração nazistas, tendo sido bem sucedido num trabalho que reduziu o índice de suicídio entre os jovens austríacos, a logoterapia é a terapia de sentido da vida, segundo Frankl (2007) o ser humano não está em busca de prazer e alívio, mas sim, em busca de um sentido para a vida, por isso, homens e mulheres que passaram por situações horríveis, em alguns casos sofrem com depressão e em outros permanecem saudáveis. 

Resiliência é a palavra para designar a capacidade humana de se recuperar após um choque, é a possibilidade de voltar a ser quem era mesmo após uma experiência traumática. Precisamos ser resilientes e a forma oportuna de sermos resilientes é encontrarmos sentido na vida, uma pessoa com propósitos, aceitando uma missão, sabendo quem ela é por vocação e fazendo a diferença no contexto onde ela está inserida será mais resiliente do que uma pessoa sem propósitos, que não tem uma missão, sem um sentido para a vida. Em outras palavras, a resiliência não existe em si mesma, mas é o resultado de uma forma de ser e compreender a si mesmo e aos demais. 

No aconselhamento pastoral podemos ajudar as pessoas a encontrarem um sentido para a vida, sua vocação, voltarem a sonhar com a realização de um trabalho que faça a diferença, voltarem a aprender, crescerem como seres humanos, ser alguém melhor, abençoadores. Essa forma de experiência deverá tornar essa pessoa mais resiliente. 

O próprio pastor é resiliente devido ter encontrado um propósito, por isso tantos homens e mulheres conseguem resistir diante de tarefas que parecem humanamente impossíveis de aguentar. Eles estão agindo conforme seus sonhos, sua vocação, seu sentido para a vida, ser aqueles que cuidam dos outros. 

Certamente muitos pastores não fazem ideia desse conceito e não imaginam de onde tiram forças para serem tão resilientes. Esse conhecimento é uma forma de se compreender a si mesmo e uma receita para ajudar quem está sofrendo por traumas, desesperança, passando por uma crise existencial, depressão e desejos suicidas. 

Algumas pessoas tem encontrado sua missão em proteger os animais, outros são defensores dos direitos das minorias, das mulheres, pessoas em situação de moradores de rua, órfãos, idosos, os mares e biomas afetados pela humanidade, pessoas perseguidas por sua fé, enfim, há muito trabalho esperando por pessoas que precisam de sentido para suas vidas. 

Podemos observar, por exemplo, os homens e mulheres que outrora eram viciados em entorpecentes, mas que agora dedicam suas vidas para ajudar pessoas que se encontram nessa situação. Pode ser que eles consigam ajudar quem está no vício por já terem passado por essa experiência traumática, mas temos a certeza de que eles se tornam mais fortes para resistir a eventuais recaídas devido sua missão de ajudar quem está preso ao vício.

A importância da resiliência para os conselheiros religiosos

A importância da resiliência no aconselhamento pastoral não pode se resumir à pessoa assistida durante o aconselhamento, a pessoa mais frágil e que precisa de apoio. É preciso pensar no todo, afinal, todos são pessoas e o pastor que se dedica a atender pessoas em situações adversas pode ser sobrecarregado pelos problemas alheios, pois um mesmo pastor pode estar lidando com dezenas de situações que exigem saúde física, psíquica e espiritual. Segundo Frankl (2007) o ser humano tem essas três dimensões que precisam estar em equilíbrio. 

Essa tricotomia só poderá ser mais bem compreendida pelo conselheiro religioso, pois pessoas sem formação religiosa não poderão atender a necessidade de resolução de problemas relacionados ao esforço humano para estar em equilíbrio, por exemplo, diante do desânimo, da incerteza e insegurança ocasionados pela falta de fé. Esse é só um exemplo das diversas formas de sofrimento relacionadas à espiritualidade dos seres humanos. 

Aconselhamento Pastoral
O aconselhamento pastoral deve servir como uma forma de ajudar pessoas que estão precisando de direcionamento, mas também é uma forma de socorro para pessoas que podem estar correndo perigos mortais, como por exemplo, desejos suicidas. A pressão é grande sobre as pessoas que lidam com esse tipo de compulsão e patologia. 

Essa pressão tende a causar transformações no conselheiro e isso não é necessariamente ruim, caso o conselheiro seja resiliente, se adapte às novas informações, se mantenha firme em suas convicções religiosas, encontre uma maneira de equilibrar as emoções e por último, mas não menos importante, cuide de sua saúde física. 

O cuidado com a espiritualidade consiste em não ser inconsistente em suas resoluções, manter uma rotina de oração, leitura da Bíblia, leitura de demais literaturas que possam servir de apoio, comunhão com a família, com o grupo religiosos do qual faz parte e também a comunidade onde está inserido, sejam vizinhos, colegas de trabalho, escola ou hobbys. 

A saúde psíquica da pessoa vocacionada para o aconselhamento precisa ser observada nos sintomas que significam perigo, mas também precisam ser tomados cuidados como prevenção para evitar que determinada experiência seja destrutiva, demasiadamente dolorosa ou ainda traga prejuízos em outras áreas de atuação do conselheiro, bem como, seus relacionamentos pessoais, conjugais e familiares. 

Segundo dados do Instituto Schaeffer, dos Estados Unidos, 70% dos líderes religiosos lutam constantemente com a depressão, 71% estão esgotados física e mentalmente, ainda dados da pesquisa apontam que 80% dos líderes religiosos acreditam que sua função pastoral afeta negativamente suas famílias e 70% dizem não ter um amigo próximo. 

Sem amigos, pressionados pelas obrigações familiares e preocupado com todos os membros de sua comunidade e seus familiares, lidando com enfermidades, situações de vulnerabilidade social, diante de situações traumáticas, lidando com os egos e conflitos internos, além é claro do aconselhamento pastoral, ser pastor é um trabalho perigoso. 

Resiliência é vital para os líderes religiosos e a tarefa do aconselhamento pastoral deve se estender também ao conselheiro por meio de redes de apoio, um conselheiro para conselheiros, um ouvinte para ouvintes, um “ombro amigo” para os “ombros amigos”, um apoiador para os apoiadores. 

Há uma cultura de se ignorar os sofrimentos dos pastores e em alguns círculos o pastor que se atrever a fazer queixas será malvisto. É um problema porque impede muitos conselheiros dedicados e que já ajudaram tantas outras pessoas a suportar as suas cargas e que agora quando estão debilitados são abandonados à própria sorte. Os líderes religiosos sofrem pela falta de empatia. 

Toda essa falta de consideração com os pastores e conselheiros religiosos em geral, no entanto, não afetam sua disposição para os cuidados pastorais, essa característica está ligada ao que dá sentido às suas vidas, seu propósito, sua vocação, que é o cuidados dos outros. 

Segundo a sistematização de Viktor Frankl, chamada de logoterapia, ao analisar o comportamento de pessoas que diante de situações horrendas ficavam deprimidas e/ou se suicidavam, enquanto outras se mantinham firmes em suas resoluções, constatou que o interesse principal do ser humano não é encontrar o prazer ou aliviar a dor, mas encontrar um sentido para a vida (Guia de Estudos, 2º Semestre de 2017, p.68). 

Embora estejamos alarmados com o crescente número de líderes religiosos que cedem diante das pressões e se suicidam, podemos afirmar que são as melhores pessoas para aconselharem e cuidarem de outros, pois encontraram um propósito e agora podem ajudar pessoas em crise a também encontrarem seu propósito. 

Nosso trabalho agora é de conscientização de que pastores e pastoras são apenas seres humanos e também precisam de apoio e compreensão enquanto lidam diariamente para serem resilientes e não se deixarem deformar diante de toda a pressão que sofrem.

13 de out. de 2020

O radicalismo dos Franciscanos, o pragmatismo dos Jesuítas e a ganância atual

Um pastor pobre chamado Hans Böhm, em Nicklashauen, no sul da Alemanha, no ano de 1476, disse “Os bispos, príncipes, condes e cavaleiros deveriam ter permissão para possuir somente tanto quanto o povo em geral. Virá o dia em que também eles terão de ganhar a vida trabalhando” (Gonzales, 2011), esse dia ainda não chegou, mas podemos observar no período anterior a Reforma Protestante de 1517 o sentimento de indignação latente. 

Ao observarmos a maneira como as Igrejas do Brasil no século XXI estão construindo suas fortunas e transformando seus líderes em novos ricos podemos imaginar que isso é uma novidade. A ideia de barganha entre o ofertante e sua divindade adorada, também incorretamente, nos parece recente. A novidade, no entanto, consiste no fato de haver inúmeras instituições novas com a mesma finalidade, o enriquecimento. Seu contraponto, o pensamento de que é correto repartir não surgiu na atualidade como podemos observar no provérbio israelita “O que dá ao pobre não terá necessidade, mas o que esconde os olhos terá muitas maldições” (Provérbios 28:27). 

Segundo Joyce Meyer, “os líderes religiosos podem estar cercados de pessoas com desejos similares ao de Judas, apegadas ao dinheiro, podendo ser induzidas ao erro” (Meyer, 2006). Concordo com o pensamento da autora, acrescento ainda que muitos líderes na atualidade podem ter o coração com a pré-disposição para o enriquecimento ilícito, o abuso dos incautos e até mesmo cometer crimes como evasão de divisas e sonegação de impostos. Tudo isso não está oculto, de fato, na atualidade impera uma espécie de ostentação das riquezas das igrejas, até mesmo nas igrejas em que ocorreram denúncias de irregularidades e a consequente prisão de seus líderes. 

No século XII o monge que ficou conhecido como São Francisco de Assis começou o movimento de repúdio às injustiças sociais tendo como bandeira principal, além da castidade e da contemplação, o voto de pobreza. Vista na atualidade como uma espécie de demonização das riquezas, o voto de pobreza e seus adeptos são incompreendidos e constantemente repelidos com a observação de que grandes homens piedosos possuíam muitas posses, o que é verdade, mas omite-se o problema do apego aos bens materiais em detrimento de uma vida honesta e dedicada à comunhão e o repartir do pão, características que devem ser marcantes na vida de um cristão. 
Outro movimento, datado do século XVI, fundado por outro Padre conhecido como Inácio de Loyola, a Companhia de Jesus, também tinha entre suas regras a dependência das doações dos fiéis e dentre suas formas de obter recursos financeiros estava a possibilidade de receberem heranças, o que rendeu a esse grupo, a má fama de serem caçadores de heranças para enriquecerem. É certo que os seus fundadores tinham o desejo de resistir firmemente à tentação de enriquecer às custas da fé alheia, mas os  representantes das gerações seguintes nem sempre concordaram com as regras. 

Na época do Brasil Colônia, por exemplo, a Companhia de Jesus enquanto tratava de catequizar os indígenas não conseguia obter todos os recursos necessários por meio das doações dos poucos fiéis presentes na colônia e por isso seus membros, chamados jesuítas, liderados pelo Padre Manoel da Nobrega, decidiram adquirir terras, escravos e com isso produzir riquezas. (Nóbrega, 1955: 121), contrariando o ideal Inaciano de pobreza total tanto dos monges como da instituição (Santo Inácio de Loyola, 2004, n.º 565). 

Nessa mesma época vozes se levantaram como crítica ao modo de operar dos Jesuítas, padres vindos em missão como Luís da Grã (Nóbrega, 1955: 267), Francisco de Borja (Leite, 1938: 176), Miguel Garcia e Gonçalo Leite (Le i te, 1938: 227). Todos Padres contrários ao modus operandi da Companhia de Jesus, contrários ao acúmulo de escravos, terras e gado, críticos que foram todos chamados de volta para a Europa sob a alegação de não adaptação, numa clara demonstração de que esse posicionamento não agradava a liderança da Igreja e tampouco os interesses da Coroa Portuguesa. 

Por parte dos Franciscanos, no entanto, o voto de pobreza foi ainda mais radical ao ponto de os monges contratarem leigos para serem os administradores das finanças de seus mosteiros e colégios, orientados a sequer recolherem dinheiro do chão ou aceitar dinheiro de quem quer que fosse, exceto para ajudar pessoas em necessidades, ou seja, não sendo para o ganho próprio (São Fran cisco, 1982: 147). 

É possível aprendermos muito com o exemplo dos nossos antepassados, desde o bom senso de zelarmos pelos recursos que temos a nossa disposição para ajudar o próximo, assim como não nos deixarmos dominar pelo sentimento de posse e dependência dos recursos financeiros cedendo à tentação de sermos desonestos e em especial sem hesitar nos posicionarmos como vozes contra os abusos das lideranças religiosas em nosso tempo.

A falência pessoal e comunitária pela falta de propósito

Um dos motivos para a falência pessoal na atualidade é a falta de propósito, não saber qual é sua vocação e assim não ter um sentido para sua vida. Esse fenômeno chamado crise existencial afeta o ser humano especialmente quando ele não tem mais uma urgência ou emergência pessoal ou comunitária, por exemplo, uma crise financeira, enfermidade, problemas familiares, violência, entre outros. Todos esses infortúnios são um oponente contra o qual lutamos bravamente até que não precisemos mais, então, quando não se tem mais que sobreviver, começa a crise existencial. 

Na história da Igreja e do pensamento cristão não é muito diferente, pois enquanto era perseguida por judeus e romanos nos seus três primeiros séculos resistia bravamente enquanto anunciava as maravilhas de Deus onde estivesse presente. Quando a perseguição findou após o Édito de Milão no século IV a Igreja começou a se conformar ao seu mundo, e assim foi durante a Idade Média, com suas missões colonialistas, exploratórias e políticas. 

Após a Reforma Protestante de 1517 a Europa experimentou novamente o sabor e a iluminação de uma Igreja novamente centrada em Cristo, não perfeita, ainda cheia de subversões, mas voltando para o prumo, a vocação, propósito e chamado para o qual fora eleita. 

Segundo a análise exegética de Blauw (1966), do texto da Primeira Epístola do Apóstolo Pedro, no capítulo dois, nos versículos nove e 10, Deus chamou a Igreja, que somos todos nós cristãos de todos os séculos, das trevas, em sua desordem e falta de propósito, para sua luz, e nos deu títulos, tais como sacerdócio real, geração eleita, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, cujo propósito é proclamar as grandezas Dele, sendo assim, quando aqueles que se consideram Igreja não cumprem a Missão, automaticamente perdem seus títulos e não devem mais considerarem-se povo de propriedade exclusiva de Deus, sacerdócio real, geração eleita e nação santa. 

A Igreja atual está parcialmente moldada conforme os anseios da sociedade, ganho de capital, segurança patrimonial, imediatismo e status. Mesmo denominações com trabalhos de expansão não conseguem esconder seu interesse em anunciar os seus números de templos, pessoas, arrecadações, tudo posses, tudo da Igreja. Em seus anúncios são ofertados milagres financeiros, são vendidas curas e mais bençãos sobrenaturais. Renunciaram seus títulos e não são mais povo de Deus, ainda assim acreditam que Deus pertença a eles e assim sendo o oferecem como um produto. 

A Igreja passa por uma crise existencial terrível e nesse contexto muitas pessoas que não estão em busca de alento para suas aflições pessoais também não encontram nela propósitos, por isso o fenômeno chamado “desigrejados”, pessoas que não vêm sentido em congregar, não querem um produto, não estão desesperados por cura ou sucesso financeiro, mas são carentes de ouvir sobre as maravilhas de Deus e de pertencerem a Ele. 

Pedro revela que Deus demonstra uma possessividade para com seu povo quando escreve: “Mas vocês são um povo escolhido, um sacerdócio real, uma nação santa, um povo pertencente a Deus” (2.9).20 Com um a referência a Oséias 2.23, Pedro declara que os leitores que, no passado “não [eram] povo”, passaram a ser chamados de “povo de Deus” (2.10), isto é, Deus lhes deu um novo nascimento. (Kistemaker, 2006, p21) 

Ao pensarmos na Obra que nos foi confiada como Igreja, há uma inversão de valores, sendo que a Igreja não possui nada, assim como não possui Deus, também não possui a Missão, ao contrário, Deus possui a Igreja na medida que a Missão também possui a Igreja. Quando a Missão de Deus, Missio Dei, possui a Igreja e todo o trabalho que é executado por amor a Deus é planejado como tarefa intrínseca ao sentido de a Igreja existir, a isso podemos chamar de propósito, sem o qual não faz sentido algum congregar, pois deixamos de ser Igreja no sentido de povo de propriedade exclusiva de Deus e passamos a ser apenas igreja, no mesmo sentido do grego eklesia, apenas mais um ajuntamento. 

Pedro escreve para pessoas que estavam vivas antes da destruição do templo de Jerusalém. Ele próprio um judeu, Pedro se dirige a muitos cristãos judeus e cristãos de descendência gentia. Além disso, ele fala aos crentes de todas as épocas e lugares que lêm sua epístola. Conhecendo muito bem o Antigo Testamento, Pedro aplica as palavras dessa parte das Escrituras aos seus leitores, porque ele os vê como povo escolhido por Deus. Ele toma emprestada a profecia de Isaías, que registra as palavras do Senhor: “Ao meu povo, ao meu escolhido, ao povo que formei para mim, para celebrar o meu louvor” (Is 43.20,21). Pedro, portanto, vê os crentes como corpo de Cristo, isto é, a igreja. (Kistemaker, 2006, p.126) 

Nossa tarefa principal como Igreja é anunciarmos que é chegado o Reino de Deus e isso nós podemos fazer tanto por meio de textos, vídeos, áudios, por meio das artes, de maneira criativa, pela internet, pessoalmente, dentro e fora dos templos, em nossos locais de trabalho, escola, nossa comunidade, vizinhança, mas precisa ser essencialmente pelo nosso exemplo. 

10 de jul. de 2019

“O pastor precisa ter o cheiro das ovelhas” e agora as ovelhas estão na internet

Líderes religiosos conformados com a falta de conhecimento ou sem interesse pelo desconhecido têm sido defendidos com conceitos sem fundamentos, baseados na compreensão incorreta de textos bíblicos como, por exemplo, 2 Coríntios 3:6 em que o Apóstolo Paulo escreveu “Ele nos capacitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; pois a letra mata, mas o Espírito vivifica.”. O texto se refere ao juízo instituído na Lei Mosaica e não no conhecimento em geral, mas essa compreensão só pode ser feita por meio do estudo, algo refutado por quem acredita que o conhecimento é prejudicial à fé. 

Igrejas estão se esvaziando pela incapacidade dos ministros de se atualizarem e acompanharem as mudanças, seja no que diz respeito à Teologia, Ciência, Filosofia ou mesmo questões simples do dia a dia, pois agora a informação está ao alcance da comunidade em geral, muitas vezes na palma da mão. Em comunidades mais simples a barreira que separa o “pastor” de suas “ovelhas” é a resistência à revolução digital. Existe certa dificuldade de adaptação devido a pouca prática ou mesmo um saudosismo pelos bons tempos passados, digo isso sabendo que as memórias tendem a se embelezar e por isso é sempre nostálgico lembrar-se das longas conversas em bancos de praça ou mesmo tomando um café em uma sala aconchegante com bons amigos, bem diferente da fria e distante relação por meio das telas. 

O que não é percebido é que para ter uma informação antigamente era preciso ir a uma loja comprar um bom livro, ou mesmo se deslocar até uma biblioteca para pesquisar, diferentemente hoje podemos pesquisar no lugar onde estamos e em apenas alguns minutos ter as respostas. Nesse ambiente atual, torna-se indesculpável a falta de conhecimento dos líderes e a rejeição pelos novos mecanismos de pesquisa e formação do conhecimento.

As definições de líder foram atualizadas e já não são admitidas posturas autoritárias, possessivas e desinformadas, por isso há um abismo separando a geração anterior de líderes da atual geração que está sendo formada. Isso será prejudicial para todos, pois há a necessidade do aconselhamento e mentoreio dos novos líderes por parte dos líderes mais experientes. No entanto, as lideranças mais antigas não tem facilidade em agraciar os “novatos” com sua experiência de vida, uma vez que não se reconhece autoridade na juventude, isso é um problema evidente nas Igrejas, pois nas empresas e mesmo na política os jovens já lideram e são muito bem sucedidos. Precisamos permitir que a juventude esteja alinhada com a liderança da Igreja, caso contrário continuará a debandada de membros das Igrejas pra outros ambientes de convivência contemporâneos e julgados mais interessantes.

Há, é claro, muitos líderes antenados com as mudanças, homens e mulheres maduros e que estão presentes nas redes sociais, participam de conversas sobre política e mesmo questões do dia a dia, sem nenhuma pretensão de parecerem mais espirituais, são abertos ao diálogo, prontos também para ouvir e não apenas para falar e que não se julgam acima dos demais. É exatamente o tipo de líder que se espera seguir na atualidade. 

Estes são os que estão preparando novos líderes para as novas gerações, dispostos a aprender e melhor ainda a compreender, seja o diferente, seja o opositor, ou mesmo conceitos que possam parecer insignificantes para uma pessoa comum, mas para o líder atualizado o saber é uma prioridade. A liderança não pode ignorar questões epistemológicas, sendo que é impreterível refletir sobre os por quês em nossa existência, seja como indivíduos ou como sociedade, questionar-se sobre sua vocação, sobre a vocação das pessoas que estão a sua volta e até mesmo sobre a vocação da Igreja, sem hipocrisia ou fantasia de uma sociedade terrena perfeita, ponderando inclusive sobre a ética e sobre a moralidade e não apenas repetindo o que foi dito anteriormente.

O diálogo deve estar sempre aberto com o conhecimento científico, mas sem compromisso de comprovação das verdades teológicas, pois não é possível realizar experimentos que validem a teologia, uma vez que a teologia abarca as questões do “além”, também chamada metafísica, no entanto, é possível conciliar questões teológicas como a Cosmologia com as descobertas científicas contemporâneas ou mesmo questões Escatológicas relacionadas aos mais recentes avanços tecnológicos. São apenas exemplos de conciliação e as pessoas estão ávidas por esse tipo de informação para ampliarem sua compreensão sobre a fé.

Não é necessário passar a se comportar como um youtuber para entreter os fiéis da nova geração, mas a compreensão do momento em que vivemos, estar contextualizado e não alienado, é fundamental para a comunicação do ministro com os membros da comunidade. Para tanto o líder religioso precisa estar constantemente se comunicando com seus liderados, seja pessoalmente, por rádio, televisão, internet ou mais precisamente mídias sociais, onde as pessoas passam boa parte de seu tempo.

28 de dez. de 2018

Profecias, a perspectiva do Antigo Testamento e a perspectiva atual


Os profetas do Antigo Testamento ousavam enfrentar toda uma nação e pagar o preço que fosse necessário para anunciar as Palavras do Eterno.

Isaias fazia previsões apocalípticas e pregava sobre o juízo com profecias fúnebres sobre os destinatários.

Jeremias era engajado nas questões sociais, não usava abstrações ou generalizações para denunciar os abusos dos ricos, pois os identificava e assim se tornou adversário de toda uma classe de líderes e religiosos em Israel. Ele experimentou o ódio do rei e descrédito de seus pares profetas em um jogo de inversões no qual ele era taxado de falso profeta porque profetizava a verdade, a ruína do povo, enquanto os falsos profetas agradavam o rei e se mantinham confortáveis em suas posições na corte, mas sendo falsos profetas, enganavam-se uns aos outros.

No cativeiro da Babilônia, Ezequiel revelou suas memórias, anunciou a revelação divina do Eterno enquanto vivia entre escravos e usando a ironia profetizou sobre a queda da Babilônia. Sua profecia era de restauração de Israel, utilizava simbologias usando o reino animal e fazia lamentações fúnebres.

 O ministério dos profetas no Antigo Testamento mantinha as tribos unidas, um tanto civilizadas e a convivência era facilitada por esse agente social encarregado de proclamar a vontade de Deus. Essas proclamações e todo o cuidado do profeta com o povo era feito por meio das profecias, fossem elas orais ou escritas.

O mistério de profetizar o que acontecerá no futuro era creditado a Deus caso se cumprisse a profecia e assim o profeta era confirmado como verdadeiro se sua profecia fosse verdadeira, mas caso a profecia não se cumprisse o profeta passaria a ser considerado um falso profeta por sua profecia ser falsa e a origem da profecia era atribuída a ele mesmo. 

Hoje em dia pessoas se dizem profetas ou adivinhos, mas caso suas palavras não se cumpram elas alegam que “Deus mudou de ideia”. Por isso há muitos que desacreditam da profecia na atualidade.
Pessoas são manipuladas por falsos profetas ou falsas profecias, tomam decisões muito importantes e arcam com consequências das mais diversas, como falência nos negócios, relacionamentos e até casamentos precipitados, trabalho sacerdotal sem vocação entre outros.

Vertentes teológicas não acreditam na profecia na atualidade, assim como não acreditam no milagre da cura e da glossolalia por exemplo. Pautam-se na crença de que somente as escrituras sagradas são a revelação do Eterno e não é necessário qualquer adicional, considerando tais fenômenos puramente humanos e não espirituais.

Outras correntes afirmam que o dom de profetizar continua vivo e serve para a edificação da Igreja. Essa afirmação está de acordo com os escritos do Novo Testamento, mais precisamente do Apóstolo Paulo, mas tem sido subvertida e utilizada para autopromoção e também para massagear os egos de pessoas carentes e muitas vezes sem qualquer outra esperança se não na busca pela manifestação do sobrenatural.

Atualmente a profecia normalmente não é feita de maneira negativa, principalmente por que vivemos numa era de incessante busca pelo bem estar e pela promoção pessoal e a ultima coisa que as pessoas querem é fazer inimigos poderosos.

Outra forma de se observar a profecia em nossos dias é pela ótica positivista de que devemos determinar algo com fé e autoridade, dando a essa atitude também o nome de profecia, mas quando não ocorre conforme a “determinação” a alegação varia entre a de que “não era a vontade de Deus” ou a de que “faltou fé”. Em todo caso a origem é humana e a profecia, apesar de não poder chamar de charlatanismo, classificaria como uma péssima escolha de nome, pois na verdade é um equivoco teológico chama-la de profecia, pois se trata de uma oração com fé. Concluindo esse ponto sobre profetizar com fé acrescento que a exemplo dos profetas do Antigo Testamento uma profecia é a vontade de Deus revelada aos homens e não a vontade dos homens revelada a Deus, pois isso, novamente, se chama oração.

Há muitos outros perigos na atualidade como, por exemplo, anunciar a própria Palavra de Deus revelada nas escrituras, o que contraria muitos segmentos da sociedade e suas práticas, além disso, em muitos países as escrituras são proibidas de serem anunciadas e muitos cristãos padecem por isso.

Os profetas da atualidade são os homens e mulheres que não temem a morte e anunciam a Palavra, por amor a Deus, abrindo mão do próprio bem estar e nunca, em hipótese alguma, se deixam levar pelos agrados desta vida para fazer “profecias agradáveis” aos reis. 

24 de dez. de 2018

Autocontrole

Citado por Paulo como virtude cristã, juntamente à hospitalidade, benignidade, sobriedade, justiça e piedade. Tito 1:8


Por quê?

Deus criou o homem para que dominasse sobre todos os animais da terra, sobre todas as aves dos céus e sobre toda a criação, de maneira que serviria a somente um Senhor, exercendo assim o auto-controle.

Citado por Pedro juntamente de conhecimento, perseverança e piedade. 2 Pedro 1:6.

Observe que Paulo e Pedro tiveram ensinamentos distintos, Pedro aprendeu o Evangelho diretamente com Jesus, de diferente forma, Paulo era um Fariseu, pertencendo ao Sinédrio, formado no colégio Gamaliel, era um doutor da Lei, mas ambos descrevem como parte fundamental do caráter cristão.

Do grego: Egkrateia, cuja raiz “kratos” significa “ter domínio sobre”, “exercer poder sobre”, “ter autoridade sobre”. O termo se relaciona à autoridade.

Sinônimos: Domínio Próprio e Temperança

Aplicação: Disciplinar-se corpo e mente, para superar a dificuldade de concentração, ou para não se precipitar em um momento de ira, ou até mesmo resistir a impulsos naturais.

Podemos entender melhor a aplicação prática do "domínio próprio" pensando no oposto, ou seja, quem não tem o "domínio próprio" é certamente dominado por algo.

Pode ser dominado pela Paixão e assim cometer pecados, tais como, Prostituição, Impureza e Lascívia.

Dominado por uma Circunstância, pode desesperar-se e então se valer de idolatria ou feitiçaria.

Se for dominado pela vaidade, sempre tentará superar o próximo, podendo causar: Inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissenções, facções e invejas.

Caso não domine o próprio ventre: Glutonarias e Bebedices.

Conforme está escrito em Gálatas capítulo 5 versículos 19 e 20:

Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, prostituição, impureza, lascívia,Idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, Invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus

É preciso então escolher os bons sentimentos e as boas atitudes, para os quais não há condenação e não se deixar dominar pelos impulsos para não ter que arcar com as suas consequências.