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5 de nov. de 2020

Os tipos de Sermões e as partes da Prédica

Há muitas formas de se comunicar uma mensagem, seja por meio de recursos audiovisuais, apresentações artísticas como danças e teatro, mas a mais tradicional e bem sucedida de todas é a prática da comunicação verbal, por meio dos sermões, da pregação da Palavra falada diretamente para os ouvintes de uma comunidade. 

Atualmente estão em evidência os sermões textuais e os expositivos, sendo que os textuais se restringem a um texto curto da Bíblia, que será orbitado pelas ilustrações e argumentos do pregador do início ao fim da mensagem, já o sermão expositivo não se restringe a um pequeno texto, ao contrário, ele contemplará sempre mais do que três versículos e por conta disso não permitirá um trabalho minucioso sobre todas as palavras empregadas no sermão, será necessário escolher bem os comentários e os esclarecimentos, mas é o tipo de sermão considerado de maior exigência de preparo, é um sermão que primeiro impactará o pregador, que o levará a orar mais, estudar mais e se tornar cada vez um pregador melhor. 

Os sermões temáticos ao contrário, não se restringem aos textos bíblicos, mas normalmente utilizam textos bíblicos para chancelarem o que se está sendo explicado como uma verdade bíblico-teológica, mas existe o perigo de o pregador não se referenciar pela Bíblia e não falar algo que realmente alimente os ouvintes, se ater a assuntos do cotidiano, lidos em jornais ou mesmo experiências pessoais. 

Espera-se do pregador um sermão estruturado com uma introdução feita sempre com oração e leitura do texto bíblico, na sequência o que é chamado de exórdio, quando o pregador atrairá a atenção dos ouvintes. Se o pregador não for eficiente na parte do exórdio, dificilmente terá a atenção das pessoas até a conclusão da pregação. Em seguida se faz a explicação do texto bíblico e então se conclui a introdução com a proposição que é a proposta do sermão. 

Após a introdução o sermão segue com o seu corpo argumentativo, quando as questões abordadas na proposição serão minuciosamente respondidas e a isso chamamos de desenvolvimento. 

Outra parte importante para dar fluência e clareza ao discurso é a frase de transição porque ajuda a subdividir o desenvolvimento para se obter uma compreensão mais profunda. Essas frases não precisam ser enunciadas pelo pregador, mas o ajudarão a organizar o sermão. 

A conclusão ou peroração deve ser cuidadosamente preparada para que os ouvintes entendam o objetivo da pregação, “a moral da história”, uma argumentação que responde as questões abordadas durante a proposição e o desenvolvimento. Outra parte importante na conclusão é uma breve recapitulação e a apresentação de desafios que sejam relevantes para os ouvintes.

3 de nov. de 2020

A importância da Teologia para os pastores

Para pastorear pessoas é fundamental estar habilitado, pois apenas vontade e amor não serão suficientes quando for necessário tomar decisões em momentos difíceis como, por exemplo, confrontar pessoas, situações de injustiça, erros de seus pares também pastores, entre outros posicionamentos que irão requerer autoridade e assertividade. 

Há situações no cotidiano que não permitirão voltar atrás, ignorar, não dizer nada, não aconselhar, se isentar, para tanto, estar preparado é fundamental no ministério pastoral. A práxis pastoral passa pela teologia que abarca as mais diversas abordagens possíveis e necessárias no preparo de líderes respeitáveis, relevantes, interessantes e consequentemente bem sucedidos em seus trabalhos. 

No momento de aconselhar os membros de sua comunidade que estão com problemas pessoais o pastor bem formado em teologia terá, por exemplo, conhecimentos sobre os estudos de Sigmund Freud e Viktor Frankl. 

Caso precise refletir sobre questões existencialistas poderá dialogar baseando-se no que aprendeu sobre Soren Kierkegaard e Martin Heidegger. 

O pastor que abraçou a teologia também conhece a história da Igreja, sabe bem sobre os erros e acertos dos pais da Igreja, por exemplo, as ideias de Irineu de Lion e Eusébio de Cesareia que fundamentaram a preeminência do Vaticano, ou ainda os acertos de Agostinho de Hipona ao resgatar o assunto da Graça Salvadora. Enfim, esse pastor ciente dificilmente será conduzido pelo caminho errado. 

A Teologia, por meio da exegese, oferece instrumentos para aprimorar a análise e compreensão dos textos bíblicos, oferece também conhecimentos sobre hermenêutica e conduzem o aspirante a pastor pela trilha para conseguir comunicar as verdades bíblicas de maneira clara, compreensível, correta e livre dos vícios de linguagem, da falta de reflexão, dos equívocos de interpretação, do anacronismo, entre tantos outros riscos que corremos ao aceitarmos a responsabilidade de fazer um sermão em uma de nossas comunidades. 

Porém, um ministério pastoral equipado e fortalecido por esta geração deve ter um fundamento bíblico e teológico adequado. A metodologia sem uma base adequada é perigosa e, em última análise, sem poder. Em outras palavras, seria melhor que entendêssemos a nossa identidade, antes de começarmos a lidar com o trabalho da Igreja e do ministério no mundo atual. Não nos atrevemos a estabelecer funções pastorais fundamentadas em modelos humanos, pois realizaremos pouco para Deus. (FISHER, 1999, p.8) 

A especialização para o pastor passa pela Teologia, pois não adiantará lançar-se ao desafio sem conhecer corretamente as escrituras e toda a compreensão dela ao longo de nossa história. Seria semelhante ao médico que ignorasse as mais recentes descobertas da medicina e ainda dependesse de tentativa e erro para descobrir quais as melhores práticas em sua função. 

Também não é apenas um trabalho de oratória, facilidade de falar em público, pois para falar com propriedade é necessário refletir e compreender assuntos complexos e saber quais foram as conclusões de homens capazes do passado, versados nos idiomas originais dos textos bíblicos. 

Estratégias de marketing não serão a base de nenhuma Igreja, pode ser útil como uma ferramenta, mas não será isso que definirá se uma Igreja é saudável, fiel e que “produz um bom fruto”, ou seja, relevante em nossa sociedade. 

É por conhecerem pouco sobre Teologia e consequentemente sobre a função pastoral que pastores despreparados cometem uma série de erros primários ao se importarem com questões que não são de sua responsabilidade, quando intervém, por exemplo, em decisões pessoais de membros de suas comunidades, quando exigem determinado padrão de vestimenta e até mesmo corte de cabelo e barba, comportando-se de maneira semelhante a ditadores de terras distantes. 

Sobre a falácia de que o conhecimento é prejudicial a fé, afirmo que ela vai contra todo o esforço evangelístico desde a Grande Comissão, acreditar por ignorância é uma prisão e sobre isso “Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente, sereis meus discípulos e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:31-32) O saber também não deve ser compreendido como soberba ou arrogância, citar bons teólogos do passado não deve ser visto com maus olhos, ao contrário, precisamos valorizar todo o desenvolvimento cristão nesses cerca de dois mil anos de labor teológico.

30 de out. de 2020

A Igreja e a Missão são inseparáveis

Somos a Igreja quando assumimos a responsabilidade confiada a nós como Igreja, tal como a perícope no Evangelho de Mateus, capítulo 28, versículo de 18 a 20: 

E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos. Amém! 

As últimas instruções de Jesus aos seus discípulos continuam sendo nossas últimas instruções e assim devemos proceder, anunciando as verdades sagradas por toda a Terra até o fim. Uma primeira observação é de que a compreensão da Grande Comissão esteve incorreta por um longo período de tempo enquanto se pensava que essa missão era estritamente transcultural, hoje temos a clareza de que mesmo no local onde estamos fixados, seja onde for, assim que nos tornamos Igreja, ou seja, parte do Corpo de Cristo, automaticamente estamos em meio a Missão. A questão é se vamos cumprir a missão ou não. 

Segundo Blauw (1966) a Igreja é testemunha de Cristo no mundo, ou então não será Igreja obediente a Cristo, trata-se da natureza missionária da Igreja, e isto deve ser feito sem ter como base os confins da Terra, sendo que o componente geográfico não é determinante para a Missão, esse foi um pensamento muito forte nos séculos XVIII e XIX. 

Compreendemos que o foco na missão transcultural teve e tem uma importância vital para a Igreja, precisamente, não podemos abandonar a missão transcultural, pois seria um novo erro, a Missão deve ser completa, a questão geográfica não deve ser vista como fator restritivo para a Missão, só assim será um componente legítimo. 

Existem muitos obstáculos para a Missão transcultural, tais como a opressão islâmica que não permite a conversão ao Cristianismo, ou ainda grupos radicais como Boko Haran que perseguem vilarejos cristãos na África Subsaariana, ateiam fogo em Igrejas e sequestram cristãos. Em países asiáticos é comum os governos restringirem a pregação do Evangelho, proibirem a leitura da Bíblia inteira ou parte dela, por motivos políticos via ideais do Comunismo Marxista ou por razões religiosas e culturais. 

Outra questão é o abandono das localidades onde a Igreja já está instalada, sem prestar qualquer auxílio à comunidade, não fazendo qualquer diferença em meio a suas atividades corriqueiras, repetitivas e sem impacto na sociedade. É um perigo muito grande a comunidade de fé estar à margem da sociedade, atribuindo para si um status de separada por ser sagrada, deixando de ser sal e luz, enfim deixando de ser a Igreja. 

Não importa se deixamos de atuar na missão no contexto local ou se deixamos de atuar nas missões transculturais. “Uma motivação baseada na autoproteção não nos conduzirá à Grande Comissão, mas sim a uma grande omissão (Borges, 2007)”. 

A princípio parece fácil a ação de fazer a diferença em sua cidade, seu bairro, local onde muitas pessoas te conhecem, mas a realidade é bem diferente, pois onde te conhecem também te julgarão pelo seu passado, podem inclusive não te respeitar por ações de antes de se posicionar como cristão, ou mesmo por ações quando já se apresentava como cristão, afinal de contas, não somos perfeitos. 

A falta de atenção na localidade ou um trabalho pouco relevante podem tornar um local outrora cheio de cristãos e de pessoas em recuperação num local sem qualquer fonte de esperança, compaixão ou acolhimento, um lugar sem fé, que dependerá novamente de uma missão transcultural vinda de longe para resgatar os valores e as virtudes cristãs. Seja na missão transcultural ou numa ação local, a verdade é que precisamos nos expor e isso é desconfortável, perigoso, desgastante, e ao mesmo tempo é o que nos faz sermos Igreja.

28 de out. de 2020

A Bíblia fazendo parte de nossas vidas em comunidade

Leitura bíblica no cotidiano da comunidade
A leitura da Bíblia é a principal diferença entre cristãos e não cristãos, pois não poderíamos nos diferenciar sem o nosso instrumento de fé. No entanto é importante nos aproximarmos dos textos da maneira correta. 

Há comunidades em que ao citar às escrituras sagradas recitando seus textos e indicando sua localização por livro, capítulo e versículo, você é bem visto. Essa não pode ser a nossa única motivação para lermos a bíblia. 

A Bíblia deve fazer parte do nosso cotidiano, na medida em que nossas atitudes refletem o conhecimento sobre os ensinamentos contidos nela. 

Deixar a bíblia aberta em uma página como um item de decoração não é errado, mas não a ler é um grande desperdício, no entanto, dizer frases como “na Coreia do Norte não tem Bíblias, então vamos valorizar as nossas” também não fomentará a leitura da Bíblia. Para isso precisamos compartilhar a bíblia em nossa transformação pessoal, em nossa sabedoria para tomarmos decisões, nosso ânimo diante das adversidades, entre tantas outras diferenças que a Palavra de Deus faz na vida dos cristãos. 

É importante pensarmos que o Cânon foi definido para ser um dos pilares que sustentariam a ortodoxia e impediriam as heresias, mas mesmo assim as lideranças religiosas do passado, especificamente durante a Idade Média, tomavam suas decisões ignorando completamente os textos sagrados e se comportavam como se tivessem mais autoridade do que eles, por isso uma das cinco Solas foi fundamental para a Reforma Protestante de 1517, Sola Escriptura, retoma o assunto da importância da Bíblia como luz para nossos caminhos. 

Outro erro terrível da Idade Média foi aprisionar a Bíblia no Latim, idioma que passou a ser inacessível, assim como já eram inacessíveis o grego e o hebraico, outras línguas nas quais já havia traduções dos textos, mas também incompreensíveis. As traduções para o inglês dos pré-reformadores John Wyclif e William Tindale foram cruciais para nosso avanço assim como a tradução de Martinho Lutero para o alemão. 

Atualmente em nossas comunidades ainda há a barreira da dificuldade de interpretação de texto, além de em certas versões ser impossível para muitos a compreensão de termos pouco verbalizados ou ainda outros arcaicos. 

Avançamos muito com novas versões com vocábulos mais simples e por isso o acesso à Bíblia está se tornando cada vez mais fácil, no entanto é necessário trazermos a Bíblia para o cotidiano, libertá-la de ser um conteúdo exclusivamente litúrgico ou para ser estudada academicamente. 

A Bíblia pode e deve ser assunto em nossas casas, nos nossos trabalhos, escola, com vizinhos e nessa troca de informações sobre a Bíblia certamente todos nós ganharemos, primeiro pelo conteúdo que é transformador e também por estarmos reforçando laços de amizade e estabelecermos uma espécie de discipulado mutuo, um companheirismo entre os cristão tendo como vínculo principal a Palavra de Deus. 

Acerca da acessibilidade das escrituras hoje podemos ler a bíblia em nossos smartphones com consultas ao dicionário, localização de textos por pesquisa de termos, ouvir o áudio ao invés de lermos e ainda podemos compartilhar os textos facilmente em nossas mídias sociais. Certamente os pré-reformadores não imaginavam que um dia chegaríamos a esse patamar, eles não imaginavam sequer a invenção da imprensa no século XV que possibilitou a produção de bíblias aos milhares, pois antes da imprensa eram necessários copistas para fazerem cada manuscrito um por um. 

Em nossas comunidades é comum a restrição ao uso do celular como forma de ler a bíblia para prevenir-se de distrações e descontrole do ambiente de culto, mas o momento é o de fomentarmos a leitura e o compartilhamento das escrituras sagradas em todas as mídias, especialmente na mídia mais utilizada em toda a Terra, o celular. De tempos em tempos, menos barreiras e mais possibilidades para a Bíblia.

13 de out. de 2020

O radicalismo dos Franciscanos, o pragmatismo dos Jesuítas e a ganância atual

Um pastor pobre chamado Hans Böhm, em Nicklashauen, no sul da Alemanha, no ano de 1476, disse “Os bispos, príncipes, condes e cavaleiros deveriam ter permissão para possuir somente tanto quanto o povo em geral. Virá o dia em que também eles terão de ganhar a vida trabalhando” (Gonzales, 2011), esse dia ainda não chegou, mas podemos observar no período anterior a Reforma Protestante de 1517 o sentimento de indignação latente. 

Ao observarmos a maneira como as Igrejas do Brasil no século XXI estão construindo suas fortunas e transformando seus líderes em novos ricos podemos imaginar que isso é uma novidade. A ideia de barganha entre o ofertante e sua divindade adorada, também incorretamente, nos parece recente. A novidade, no entanto, consiste no fato de haver inúmeras instituições novas com a mesma finalidade, o enriquecimento. Seu contraponto, o pensamento de que é correto repartir não surgiu na atualidade como podemos observar no provérbio israelita “O que dá ao pobre não terá necessidade, mas o que esconde os olhos terá muitas maldições” (Provérbios 28:27). 

Segundo Joyce Meyer, “os líderes religiosos podem estar cercados de pessoas com desejos similares ao de Judas, apegadas ao dinheiro, podendo ser induzidas ao erro” (Meyer, 2006). Concordo com o pensamento da autora, acrescento ainda que muitos líderes na atualidade podem ter o coração com a pré-disposição para o enriquecimento ilícito, o abuso dos incautos e até mesmo cometer crimes como evasão de divisas e sonegação de impostos. Tudo isso não está oculto, de fato, na atualidade impera uma espécie de ostentação das riquezas das igrejas, até mesmo nas igrejas em que ocorreram denúncias de irregularidades e a consequente prisão de seus líderes. 

No século XII o monge que ficou conhecido como São Francisco de Assis começou o movimento de repúdio às injustiças sociais tendo como bandeira principal, além da castidade e da contemplação, o voto de pobreza. Vista na atualidade como uma espécie de demonização das riquezas, o voto de pobreza e seus adeptos são incompreendidos e constantemente repelidos com a observação de que grandes homens piedosos possuíam muitas posses, o que é verdade, mas omite-se o problema do apego aos bens materiais em detrimento de uma vida honesta e dedicada à comunhão e o repartir do pão, características que devem ser marcantes na vida de um cristão. 
Outro movimento, datado do século XVI, fundado por outro Padre conhecido como Inácio de Loyola, a Companhia de Jesus, também tinha entre suas regras a dependência das doações dos fiéis e dentre suas formas de obter recursos financeiros estava a possibilidade de receberem heranças, o que rendeu a esse grupo, a má fama de serem caçadores de heranças para enriquecerem. É certo que os seus fundadores tinham o desejo de resistir firmemente à tentação de enriquecer às custas da fé alheia, mas os  representantes das gerações seguintes nem sempre concordaram com as regras. 

Na época do Brasil Colônia, por exemplo, a Companhia de Jesus enquanto tratava de catequizar os indígenas não conseguia obter todos os recursos necessários por meio das doações dos poucos fiéis presentes na colônia e por isso seus membros, chamados jesuítas, liderados pelo Padre Manoel da Nobrega, decidiram adquirir terras, escravos e com isso produzir riquezas. (Nóbrega, 1955: 121), contrariando o ideal Inaciano de pobreza total tanto dos monges como da instituição (Santo Inácio de Loyola, 2004, n.º 565). 

Nessa mesma época vozes se levantaram como crítica ao modo de operar dos Jesuítas, padres vindos em missão como Luís da Grã (Nóbrega, 1955: 267), Francisco de Borja (Leite, 1938: 176), Miguel Garcia e Gonçalo Leite (Le i te, 1938: 227). Todos Padres contrários ao modus operandi da Companhia de Jesus, contrários ao acúmulo de escravos, terras e gado, críticos que foram todos chamados de volta para a Europa sob a alegação de não adaptação, numa clara demonstração de que esse posicionamento não agradava a liderança da Igreja e tampouco os interesses da Coroa Portuguesa. 

Por parte dos Franciscanos, no entanto, o voto de pobreza foi ainda mais radical ao ponto de os monges contratarem leigos para serem os administradores das finanças de seus mosteiros e colégios, orientados a sequer recolherem dinheiro do chão ou aceitar dinheiro de quem quer que fosse, exceto para ajudar pessoas em necessidades, ou seja, não sendo para o ganho próprio (São Fran cisco, 1982: 147). 

É possível aprendermos muito com o exemplo dos nossos antepassados, desde o bom senso de zelarmos pelos recursos que temos a nossa disposição para ajudar o próximo, assim como não nos deixarmos dominar pelo sentimento de posse e dependência dos recursos financeiros cedendo à tentação de sermos desonestos e em especial sem hesitar nos posicionarmos como vozes contra os abusos das lideranças religiosas em nosso tempo.

21 de dez. de 2018

O que é o Natal?


Todos nós sabemos que a comemoração do Nascimento do Messias é uma festa digna, mas cheia de distorções, vamos falar só um pouquinho sobre isso, porque a mensagem mais importante é que Jesus Nasceu.

"Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o governo estará sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz."

IS 9:6

Mesmo que a data esteja errada, o que não ocorre por simples equivoco, pois os Romanos que instituíram a data no século IV, o fizeram porque comemoravam a festa da chegada do inverno, é uma excelente oportunidade para conscientizarmos as pessoas sobre a necessidade de aprender de Deus, aprender sobre Jesus Cristo, não apenas sua história, mas aprender a como servi-lo.

Jesus Nasceu, de maneira milagrosa, cresceu e mostrou o caminho para Deus, entregou-se como sacrifício expiatório, ressuscitou e foi nos preparar um lugar, recebeu um nome que foi posto pelo Pai acima de todo nome, dividiu a nossa história, e ainda hoje tem feito grandes coisas em nosso meio, assim cremos. Infelizmente sua mensagem e história são colocadas por muitos em segundo plano.


O Papai Noel - Estudiosos afirmam que a figura do "bom velhinho" foi inspirada num bispo chamado Nicolau, que nasceu na Turquia em 280 d.C. O bispo, homem de "bom coração", costumava ajudar as pessoas pobres, deixando saquinhos com moedas próximas às chaminés das casas. Foi transformado em santo (São Nicolau) pela Igreja Católica, após várias pessoas relatarem milagres atribuídos a ele. A associação da imagem de São Nicolau ao Natal aconteceu na Alemanha e espalhou-se pelo mundo em pouco tempo. Nos Estados Unidos, ganhou o nome de Santa Claus, no Brasil de Papai Noel e em Portugal de Pai Natal.

É muito triste que crianças sejam ensinadas a escrever cartinhas para o Papai Noel e nem ao menos saber o significado de Messias, ou Cristo ou ainda serem ensinadas a serem comportadas para ganhar presentes, quando na verdade deveriam ser formadas segundo os preceitos de Deus.


Árvore de Natal - Sua origem mais remota está ligada às civilizações antigas e às festas pagãs em comemoração ao solstício de inverno no Hemisfério Norte, onde temos o dia mais curto e a noite mais longa do ano. Enfeitar árvores é um ritual antiquíssimo, presente em praticamente todas as culturas e religiões pagãs, para celebrar a fertilidade da natureza. Atribui-se a São Bonifácio, no século VIII, sua origem. Chegado à Alemanha, como missionário, substituiu o culto a Odin pela árvore de Natal. 

É tradição em muitas famílias montar árvores de natal e colocar os presentes embaixo dela, mas como aprendi há muitos anos atras que não deveria fazê-lo e mantive desde então a decisão de não enfeitar a nossa casa com árvores de natal e demais adornos natalinos, embora não fique pressionando os amigos e parentes para fazerem igual.

"Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente seguro em seu próprio ânimo. Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz. O que come para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e o que não come para o Senhor não come e dá graças a Deus."

Rm 14:5-6


Presépio - uma forma de encenação do nascimento de Jesus, utilizando esculturas que simbolizam José e Maria, além do próprio menino Jesus e os animais que estariam com eles no estábulo. A criação do primeiro presépio é atribuída a São Francisco de Assis, que o teria construído em 1223, na cidade italiana de Greccio. Ele queria mostrar aos camponeses como tinha sido a noite do nascimento de Jesus, mas não sabia como fazer. Foi então que teve a ideia de pegar argila e montar vários bonecos para simbolizar os personagens daquela noite tão simbólica quanto sagrada para os cristãos.

Embora eu não tenha o hábito de expor a encenação do nascimento do messias como algumas pessoas o fazem, também não vejo qualquer problema em fazê-lo, desde que seja apenas uma obra de arte e nada mais que isso, pois não deve tomar o lugar no coração como um ídolo, 


O mais importante é que Jesus nasceu e que neste Natal possamos engrandecer o seu nome acima de tudo e de todos. 

7 de dez. de 2018

Um pouco da História da Septuaginta

Muitas pessoas questionam a autenticidade da Bíblia, o Livro Sagrado dos Cristãos, e os argumentos geralmente são a falibilidade humana e as alterações tendenciosas feitas durante o processo de tradução dos manuscritos hebraicos para os mais variados idiomas tais como o grego, latim, siríaco, armênio, entre outros.

O processo de tradução, obviamente é complexo e exigiu a disposição e tempo de homens capazes, bem instruídos e no caso da Septuaginta, raramente encontrados nos séculos I aC., pois como se pode imaginar, a maior parte da população era analfabeta e pouquíssimas pessoas possuíam os recursos necessários para custear um processo de tradução.

Segundo conta a lenda judaico-cristã, a Septuaginta fora encomendada pelo Rei Egípcio Ptolomeu II, que primeiramente obteve as traduções da Torah e Tehilim, o livro de Salmos, feita na cidade de Alexandria, no Egito, com a intenção de terem os escritos sagrados dos Judeus, em grego, na sua biblioteca. Uma das possíveis razões para isso era o grande número de judeus residentes na cidade de Alexandria.

O nome Septuaginta significa do Latim Setenta, segundo a tradição porque fora traduzida por 72 rabinos, outra versão da história aponta para apenas cinco tradutores e 70 membros do sinédrio que apenas aprovaram a tradução.

Posteriormente, todos os demais livros dos judeus foram traduzidos para o grego, traduções não tão boas como as produzidas em Alexandria, mas foi concluída no século IV dC, a Septuaginta, o conjunto de livros dos judeus traduzidos do hebraico para o grego ou produzidos diretamente em grego como o caso de I e II Macabeus. 

O nome Septuaginta surgiu após a conclusão da obra, do latim Interpretatio septuaginta virorum, obviamente porque era a língua litúrgica da Igreja Romana, mas em grego o nome é hē metáphrasis tōn hebdomēkonta, que significa tradução dos setenta interpretes, abreviado normalmente como LXX.

No século XV, com a reforma protestante, o Canon Cristão ficou dividido em dois modelos, sendo um composto por todos os livros da Septuaginta e outro que, elaborado por Martinho Lutero, desconsiderou os livros Judite, Tobias, I e II Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc.

Atualmente críticos e historiadores avaliam a existência da Septuaginta conforme conta a tradição e alguns a consideram apenas um mito, em parte por não existir um fragmento e haverem apenas menções à sua estória de origem. A Septuaginta como conhecemos seria datada apenas do II ao IV século dC. No entanto, no Novo Testamento das 350 menções ao Antigo Testamento, ao menos 300 se referem à versão Grega, como por exemplo, em Mateus 4:4 o uso do vocábulo Deus, conforme a Septuaginta, ao invés de Senhor conforme a Torah ao referir-se a Deuteronômio 8:3.

A diferença de determinados vocábulos acontece pelo limitado conhecimento do grego koiné por parte dos tradutores, pela falta de um correspondente com o significado exato do original ou pela impossibilidade da compreensão de determinadas expressões por questões culturais como, por exemplo, um indivíduo é chamado no hebraico de nefesh, que significa literalmente garganta, mas que se compreende como o indivíduo pela crença de que foi pela garganta que se recebeu o fôlego de vida, enquanto no grego a palavra usada é psiché, alma, vida, pessoa, criatura.


23 de ago. de 2018

Fé

 “Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta”
Tiago 2:26

Alguém pode dizer então que há uma contradição entre o texto do irmão do Mestre e toda a crença monergista fundamentada nas epístolas paulinas, compreendida nos escritos de Agostinho e posteriormente defendida por João Calvino.

“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus.”
Efésios 2:8

Rejeitando qualquer crença sinergista de que nós, seres humanos, temos algum mérito em nossas decisões benignas, compreendemos que o dom da Fé, é somente concedido por Deus, por sua graça.

Podemos afirmar que os textos de Tiago 2:26 e Efésios 2:8 não se contradizem, mas se encontram, e compreendemos a incontestável manifestação do poder e da salvação do Senhor Deus Todo Poderoso na atitude de fé, ou seja, obediência, vislumbrada diariamente na vida de cada cristão.

Nas palavras de Bonhoeffer (1937), não podemos dizer que “somente o crente é obediente”, sem completar também que “somente o obediente é crente”.

O exemplo mencionado por Bonhoeffer é o do jovem rico que se aproxima do Mestre e indaga sobre como fazer para ser salvo e a resposta de Jesus é resumida em obediência ao mandamento enérgico de se desfazer de seus bens e então segui-lo.

A questão que o jovem tentou levantar era uma forma de autojustificação pela incompreensão da salvação por meio do cumprimento dos mandamentos e ainda uma forma de começar uma discussão filosófica, ética e sem compromisso, mas quando ele foi surpreendido pelo chamado à obediência, encurralado, recuou por ser muito rico e apegado aos seus bens materiais. Mal sabia ele que vender os bens e doar aos pobres seria muito mais fácil do que o mandamento seguinte, de seguir os passos do Messias.

Concluo que a Fé genuína produz a obediência e a obediência é além de uma prova, uma porta que abrimos para vivermos um relacionamento íntimo e sincero com Deus, livre de qualquer espiritualidade barata e emocional, um caminho para a Vida Eterna que só Jesus concede e concede somente aos seus seguidores, chamados seus discípulos.