A ideia de que nós, como Igreja, não podemos nos reinventar não se sustenta, uma vez que no processo de construção do pensamento cristão transitamos da leitura do 1º Testamento nas reuniões feitas nas casas dos discípulos judeus do Messias para os templos suntuosos com cadeiras macias e a leitura dos escritos destes mesmos discípulos, o 2º Testamento.Observando a construção da identidade cristã feita pelos pais da Igreja, a Reforma Protestante de 1517 e todas as demais reformas locais, deveria ser claro para nós como Igreja que não devemos engessar e padronizar a forma de ser Igreja.
Observo que as críticas devem ocorrer, a profecia deve continuar, a correção dos erros é fundamental para que a Igreja seja saudável, mas as críticas não podem basearem-se simplesmente em tradição e opinião.
O ponto a que quero chegar é que se a Igreja vai ter a parede preta, se a banda faz um show pop, se os membros dançam e se divertem, isso não é um problema.
Sabemos que somos criativos conforme nosso criador, inteligentes e divertidos porque de diversas formas "A alegria do Senhor é a nossa força".
Filipenses 1: 18. Mas, que importa? O importante é que de qualquer forma, seja por motivos falsos ou verdadeiros, Cristo está sendo pregado, e por isso me alegro. De fato, continuarei a alegrar-me,
Não significa não avaliar e não julgar, mas sim, não agir contra por não saber quais as reais motivações das pessoas. Há muita sabedoria nisso, pois se nos levantamos contra todos os movimentos que são diferentes do nosso, o que nos torna mais especiais?
Se você não quer dançar porque a Igreja de Atos não dançava, sem problemas, mas não seja chato exigindo que todas as Igrejas sejam exatamente como está descrita a primeira Igreja em Jerusalém. Há muita divisão desnecessária. O que nos une é muito maior.
No entanto, que os abusos, a falta de ética, a exploração da fé, a deturpação da verdadeira religião e o pecado encontrem ferrenhos opositores em nós.
30 de set. de 2022
26 de set. de 2022
Aprendendo a confiar
Salmos 20
"O SENHOR te ouça no dia da angústia, o nome do Deus de Jacó te proteja. Envie-te socorro desde o seu santuário, e te sustenha desde Sião. Lembre-se de todas as tuas ofertas, e aceite os teus holocaustos.Conceda-te conforme ao teu coração, e cumpra todo o teu plano. Nós nos alegraremos pela tua salvação, e em nome do nosso Deus arvoraremos pendões; cumpra o Senhor todas as tuas petições. Agora sei que o Senhor salva o seu ungido; ele o ouvirá desde o seu santo céu, com a força salvadora da sua mão direita. Uns confiam em carros e outros em cavalos, mas nós faremos menção do nome do Senhor nosso Deus. Uns encurvam-se e caem, mas nós nos levantamos e estamos de pé. Salva-nos, Senhor; ouça-nos o rei quando clamarmos."
O Salmo 20 retrata a oração do povo por seu rei que estava indo à batalha, é um salmo conhecido também como uma oração em tempos de angustia. O povo clamava e abençoava o seu rei com atitudes de esperança e confiança em Deus.
Assim como o rei Davi e seu povo, nós atravessamos nossos momentos de batalhas difíceis e de angustias, mas algo que me chama a atenção neste salmo é o fato de que o povo se manteve confiante no Senhor, mesmo sabendo das possibilidades negativas eles escolheram crer!
Tenho uma oração que declaro diante do Senhor em momentos de angústias, lutas e incertezas, eu digo: Senhor eu escolho confiar em Tí! E essa escolha tem sido um caminho para eu viver muitos milagres e uma forma de eu enxergar o quanto Deus cuida de mim e de minha família.
Olha o que o dicionário diz sobre confiança:
Crença na sinceridade, lealdade, competência, discrição etc. de outrem; crédito, fé.
Crença de que algo não falhará, de que é bem-feito ou forte o suficiente para cumprir sua função.
O Salmo 20 retrata a oração do povo por seu rei que estava indo à batalha, é um salmo conhecido também como uma oração em tempos de angustia. O povo clamava e abençoava o seu rei com atitudes de esperança e confiança em Deus.
Assim como o rei Davi e seu povo, nós atravessamos nossos momentos de batalhas difíceis e de angustias, mas algo que me chama a atenção neste salmo é o fato de que o povo se manteve confiante no Senhor, mesmo sabendo das possibilidades negativas eles escolheram crer!
Tenho uma oração que declaro diante do Senhor em momentos de angústias, lutas e incertezas, eu digo: Senhor eu escolho confiar em Tí! E essa escolha tem sido um caminho para eu viver muitos milagres e uma forma de eu enxergar o quanto Deus cuida de mim e de minha família.
Olha o que o dicionário diz sobre confiança:
Crença na sinceridade, lealdade, competência, discrição etc. de outrem; crédito, fé.
Crença de que algo não falhará, de que é bem-feito ou forte o suficiente para cumprir sua função.
Muitos confiam em sua força, em seus bens materiais, nos seus contatos "poderosos", em suas empresas, entre outras coisas que são matérias, mas o povo e Davi nos ensinam que podemos e devemos colocar nossa confiança Naquele que é sincero, leal, competente, Naquele que não te envergonhará, nem falhará, porque tudo que Ele faz é bem feito e Ele é o suficiente para nós, Poderoso para fazer muito além do que pedimos ou pensamos.
Em Deus não há decepção!
Deus nos chama a exercermos fé em tempos das batalhas e angústias e ainda que a gente caia, Ele nos levantará!
Em Deus não há decepção!
Deus nos chama a exercermos fé em tempos das batalhas e angústias e ainda que a gente caia, Ele nos levantará!
Texto de Paula Prado
13 de dez. de 2021
PodCast Evangelho que Transforma a História 0001: Reforma Protestante
Nosso podcast Superpoderes na Bíblia foi um sucesso e agora, para você que curtiu e pediu mais, Podcast Evangelho que Transforma a História 0001
Participação do Dr. Rafael da Gama, Historiador, Especialista na História das Religiões e da Religião Cristã
PodCast Evangelho que Transforma - 0001: Super Poderes na Bíblia
16 de nov. de 2020
Possíveis configurações para o líder religioso no novo milênio
Segundo a Professora Blanches de Paula, no guia de estudos, “o cuidado pastoral em relação às pessoas é apresentado na figura do Deus Pastor, Deus cuidador”. Isso ocorre porque os israelitas experienciavam no dia a dia o ministério dos pastores como cuidadores dos animais, por isso o Rei Davi compôs o Salmo 23 no qual declarou que “O Senhor é o meu Pastor”. Esse ministério de cuidador dos homens também é dirigido à Cristo e aos seus discípulos, que receberam a alcunha de apóstolos, equivalente a missionário, esses lideravam a primeira Igreja e para auxiliá-los no cuidado das pessoas separaram diáconos. Posteriormente a Igreja instituiu mais cargos como os Bispos que cuidavam de várias Igrejas, os Presbíteros que pastoreavam igrejas locais e os diáconos que os auxiliavam. Todos estes no entanto são também pastores em suas atribuições de cuidado de pessoas.
Todas as funções que assimilam o cuidado de pessoas podem ser consideradas espécies de pastoreio e são essenciais para o bem das sociedades em geral. Isso aconteceu por todo o período bíblico, durante toda a história do Cristianismo e não é diferente agora. No prefácio do livro O Ser Humano em Busca de Identidade, o teólogo Gottfried Brakemeier cita a frase do filósofo Norbert Bols “Nossos grandes problemas não resultam da falta de conhecimento, e, sim, de orientação; não somos ignorantes, estamos confusos.” (BRAKEMEIER,2002). Significa que o fato de as pessoas terem informações disponíveis não define que elas sabem o que devem fazer ou numa compreensão mais ampla da expressão que elas “saibam o caminho a seguir”. Temos uma enxurrada de conteúdo, aprendemos diariamente por meio de telas e podcasts, mas mesmo assim precisamos de alguém que nos ouça, nos ame, nos sirva, cuide de nós. Isso é vocação de pastor.
Russel Shedd no livro O Líder que Deus Usa - Resgatando a Liderança Bíblica para a Igreja no Novo Milênio, “(SHEDD,2000) diz que a liderança faz uma grande diferença, pois oferece direção, molda o caráter e cria oportunidades, alguns homens e mulheres são destinados a liderar e influenciar outros. Aqueles que Deus separa para liderar desfrutam tanto os privilégios quanto as responsabilidades. Suas influências extensivas e efetivas sobre outras pessoas os distinguem dos seguidores. A liderança de alta qualidade será encontrada entre os mais valiosos tesouros que qualquer comunidade ou organização possui, ao contrário, a liderança de baixa qualidade produz um desperdício e trágico e uma frustração caótica“.
Bons líderes não são encontrados em cada esquina, leva tempo de preparo, estudo, qualidades inatas ou adquiridas com a maturidade também são importantes assim como a vocação para o cuidado de pessoas. O líder atualizado também precisa entender melhor as necessidades de seus liderados. O pastor de uma Igreja local não terá sua congregação vazia porque não falar como um youtuber, mas porque não está atendendo às necessidades de seus seguidores. Se não atender às necessidades dos membros de uma comunidade eles simplesmente vão embora para outra comunidade de fé. O líder atualizado tem como tarefa analisar bem quais são os melhores métodos de ensino, uma melhor abordagem para facilitar o desenvolvimento e amadurecimento de seus liderados e assim oferecer um ambiente propício para a comunhão dos mais variados tipos de pessoas, com os mais variados tipos de problemas. Isso vai requerer muita energia e tempo de relacionamento.
A tendência atual é de nos tornarmos cada vez mais seletivos no relacionamento entre líderes e liderados, assim como outras formas de quebra de paradigmas tais como acontecera no período da Reforma Protestante que resultou no Iluminismo, o Movimento Pentecostal norte americano que resultou na criação de milhares de pequenas Igrejas Cristãs espalhadas por todo o Globo, o advento da Internet está causando o que é chamado modernidade líquida, em que tudo é fluído, a informação é rápida e muito específica, cultos são transmitidos pela internet, centenas de pregações são postadas diariamente no Youtube e o líder religioso que estiver alienado dificilmente conseguirá manter membros em sua comunidade de fé.
Isso não está acontecendo somente no ambiente religioso, mas no ambiente corporativo e até mesmo na política estão surgindo várias novas correntes de ideias, no corporativo são as startups e na política são jovens com pensamentos políticos próprios fundando partidos e movimentos novos. Assim ninguém é obrigado a seguir quem não quer. Eis um grande desafio para todos os líderes no novo milênio, os religiosos chamados pastores não são exceção. Precisarão estar preparados para lidar com as mais variadas situações e não conseguirão sem saúde física, emocional e recursos intelectuais, "Para quem só sabe usar martelo, todo problema é um prego."(Abraham Maslow)
11 de nov. de 2020
O desafio e o perigo de pastorear
Um pastor ou uma pastora naturalmente sofrerá muita pressão ao liderar a sua comunidade, sendo muitas vezes induzido ao erro por falsos ensinamentos.
A influência pode ser de origem externa, oriunda de outras culturas, por exemplo, a crescente onda do judaísmo messiânico que numa primeira análise pode ser considerado coerente, mas ao se aprofundar no tema logo se percebe a característica judaizante, algo combatido pelos apóstolos no Século I.
A ameaça à Igreja também pode ser interna, por exemplo, quando uma pessoa leiga assimila uma doutrina incorreta e passa a difundi-la em meio aos demais membros da comunidade e caso o pastor local não interfira a comunidade pode ser dividida e não há limites para os absurdos e perigos nas heresias.
Em outros momentos o próprio pastor da Igreja pode ser tentado a recorrer a soluções contrárias aos escritos bíblicos, aceitando a venda de objetos supostamente consagrados e com poderes miraculosos, apoiando políticos em troca de ganhos pessoais, em suma cometendo novamente os mesmos erros históricos dos cristãos.
É fundamental que o pastor possa julgar se sua decisão está de acordo com o credo bíblico e caso reconheça que determinados assuntos são complexos demais para sua conclusão, ainda deverá ser capaz de compreender a conclusão de um especialista e concordar ou discordar.
Quanto às questões intrínsecas ao meio em que se lançarão ao pastoreio, é importante termos a noção de que não estarão “escrevendo em uma folha em branco”, ao contrário, no Brasil, por exemplo, há uma grande variedade de crenças, valores, dogmas passados de geração em geração e essa herança consiste majoritariamente de catolicismo romano e espiritismo.
Quando vejo o apego de grandes massas ditas evangélicas as práticas medievais católicas - de objetos ungidos e consagrados para o culto a Deus, busca por bispos e apóstolos, recurso a práticas supersticiosas, pergunto-me se, ao final das contas, o neopentecostalismo brasileiro não é, na verdade, um filho da Igreja Católica medieval, uma forma de neocatolicismo tardio que surge e cresce em nosso país onde até os evangélicos tem alma católica. (LOPES, 2008, p.31)
O despreparo das lideranças religiosas além de prejudicar os liderados com distorções dos valores cristãos, abusos de autoridade, exploração, estelionato e enriquecimento ilícito, causa o descrédito do ministério pastoral, causando um mal estar até mesmo para os mais bem preparados, sérios e honestos pastores que dedicam suas vidas ao cuidado de pessoas, essa falta de ética é confrontada durante todo o estudo teológico, seja ao analisarmos exegeticamente cada perícope, ao revisitarmos cada momento histórico vivido pelos pais da Igreja, quando lemos os textos de teólogos contemporâneos, assim como em várias outras vertentes do curso.
É importante destacar também os malefícios aos próprios pastores e seus familiares decorrentes da falta de preparo, pois sem a devida instrução é possível perder-se entre tantas obrigações e a má administração do tempo e das prioridades, assim famílias se dividem, filhos se rebelam e passam a viver de maneira contrária ao que os pais e pastores lhes ensinaram. Não são poucos os casos de divórcio entre os pastores e apesar de não termos números oficiais, temos conhecimento de vários líderes religiosos evangélicos que estão no segundo casamento.
Entre tantos dilemas pessoais, questões administrativas na instituição religiosa, afrontas pessoais, disputas de poder, o aumento da depressão entre os pastores está sendo evidenciado pelo recente crescimento no número de suicídios e segundo dados de pesquisa do Instituto Schaeffer, dos Estados Unidos, 70% dos pastores já lutam contra a depressão e 80% acreditam que o ministério pastoral afeta negativamente suas famílias.
A teologia é a melhor forma de se preparar um pastor para a sua função, assim como a medicina está para o médico, a engenharia para o engenheiro, o direito para o advogado, mas não é somente a teologia que fará o pastor bem sucedido, a teologia é parte fundamental no preparo, mas não são todos os teólogos bons pastores.
A melhor palavra é vocação, ser benigno, ter vontade de cuidar de pessoas, interesse pelo bem da comunidade, promover o bem estar de maneira inclusiva, sem preconceitos, sem barreiras e em todas as esferas, não somente no que diz respeito a espiritualidade, mas também nas demais questões como, por exemplo, problemas familiares, financeiros e justiça social. Soma-se a isso a inquietação de todas as pessoas que esperam ouvir dos pastores sempre boas palavras, conteúdos ricos, úteis, que acrescentem e que dê sentido às suas visitas constantes aos locais de reunião. Caso o pastor não disponha de todas as ferramentas disponibilizadas por meio da Teologia, seu ministério, sua família, sua comunidade, seus demais projetos pessoais e sua vida estarão sempre arriscados a fracassar.
9 de nov. de 2020
A dualidade dos sacrifícios e privilégios de ser Pastor
A carência de bons líderes pode ser percebida nas recorrentes tragédias sociais e familiares que nos assolam na atualidade. O descrédito de nossas lideranças políticas, militares e religiosas deixou nossa sociedade sem um rumo definido.
Instituições que antes apontavam o caminho para o progresso, para a segurança e para a moralidade, agora são consideradas retrógradas. A má utilização do poder nessas esferas por meio da corrupção, dos sucessivos golpes militares e os abusos por parte de pastores e incluem-se líderes de outras religiões ou seitas além do protestantismo, justificam o desinteresse de grande parcela da sociedade.
Todos os líderes têm que começar se justificando pelos erros de seus antecessores. Não é o mundo ideal, mas é necessário lidar com o resultado de tantos anos de mágoa. No passado a relação entre pastores e suas igrejas era sustentada pela hierarquia e pela falta de informação, nesse ambiente, tanto o pastor não dispunha de ferramentas como o restante dos membros das organizações religiosas não sabiam quais eram as alternativas para um ambiente de crescimento pessoal.
Por esses motivos as comunidades podem até pensar que não precisam de pastor, mas a verdade é que até mesmo os pastores também precisam de pastores. Isto fica claro quando pesquisamos os índices de falências dos ministérios pastorais, seja por falha moral, depressão ou por desentendimentos em suas comunidades. Uma pesquisa elaborada pelo Instituto Francis Schaeffer mostra que todos os meses 1500 pastores abandonam seus ministérios por problemas morais, esgotamento espiritual e até mesmo por desavenças com a igreja.
O pastor que começa o seu ministério preocupado em servir a comunidade automaticamente assume uma posição de poder. Não é fácil lidar com essa posição, por isso o conselho descrito em Primeira Timóteo, “(Bíblia) é o de que os líderes da Igreja não devem ser recém convertidos para que não se ensoberbeçam.” Apesar de terem se passado quase dois mil anos desde que esse conselho foi dado, ainda sim constatamos a carência de líderes religiosos devidamente preparados e amparados em suas necessidades ministeriais.
Pastores, ao contrário do que o imaginário popular espera, são no fim das contas apenas pessoas, eles sofrem como todos podendo adoecer, se entristecer, podem ser virtuosos em muitos momentos ou simplesmente falhar diante do desafio de liderar dezenas, centenas e às vezes milhares de pessoas.
Dentre as falhas dos pastores e grande parte das crises de relacionamento com suas comunidades de fé está o abuso de autoridade, o autoritarismo, um poder centralizador, controlador e sem espaço para o diálogo. Isso ocorre de maneira sutil enquanto cresce uma relação de dependência baseada na concepção de que o Pastor sabe mais e por isso decidirá melhor, em contrapartida o dependente perde sua autonomia enquanto transfere sua responsabilidade para o seu Pastor.
Um importante resultado de nossa reconstrução da história ideativa da passagem do cuidado de si para o cuidado dos outros poderia ser reformulado da seguinte maneira nos termos da psicologia social: na medida em que a relação recíproca de sujeitos (como “ mediadores” potencialmente recíprocos) no contexto de uma “prática da liberdade” (“ cuidado de si” ) se modificou, tomando-se uma relação sujeito-objeto complementar (“ cuidado dos outros” ), e se consolidou estruturalmente, todos os participantes perderam potenciais de liberdade: uns em termos de delegação de responsabilidade própria (a um “ auxiliador” ), os outros em termos de assunção dessa mesma responsabilidade (por outros). Ao grau de tutela de uns corresponde o excesso do fardo de cuidado dos outros. (Steinkamp,1999)
Não é por acaso que muitos pastores sofrem com stress e depressão, em uma comunidade com centenas de pessoas, caso não tenha um bom preparo intelectual, uma administração financeira saudável e um bom grupo de apoiadores para distribuir as responsabilidades o esgotamento é uma certeza.
Manter um relacionamento saudável com a comunidade, demonstrando que acima de qualquer privilégio que possa ter por sua posição de prestígio, está sua vontade de servir, ajudando as pessoas a encontrarem seus caminhos, deixando claro que a responsabilidade também é dos demais membros da comunidade bem como de cada indivíduo por si, é a melhor forma de suavizar o fardo e evitar a centralização do poder e um possível autoritarismo tirânico. Apesar dos percalços a alegria de ser um dos responsáveis por conduzir pessoas ao sucesso no aquém e no além deve ser a de um tamanho inimaginável e ao passo que muitas pessoas são ingratas e desinteressadas outras são simplesmente fascinadas pelos seus Pastores.
5 de nov. de 2020
Os tipos de Sermões e as partes da Prédica
Há muitas formas de se comunicar uma mensagem, seja por meio de recursos audiovisuais, apresentações artísticas como danças e teatro, mas a mais tradicional e bem sucedida de todas é a prática da comunicação verbal, por meio dos sermões, da pregação da Palavra falada diretamente para os ouvintes de uma comunidade.
Atualmente estão em evidência os sermões textuais e os expositivos, sendo que os textuais se restringem a um texto curto da Bíblia, que será orbitado pelas ilustrações e argumentos do pregador do início ao fim da mensagem, já o sermão expositivo não se restringe a um pequeno texto, ao contrário, ele contemplará sempre mais do que três versículos e por conta disso não permitirá um trabalho minucioso sobre todas as palavras empregadas no sermão, será necessário escolher bem os comentários e os esclarecimentos, mas é o tipo de sermão considerado de maior exigência de preparo, é um sermão que primeiro impactará o pregador, que o levará a orar mais, estudar mais e se tornar cada vez um pregador melhor.
Os sermões temáticos ao contrário, não se restringem aos textos bíblicos, mas normalmente utilizam textos bíblicos para chancelarem o que se está sendo explicado como uma verdade bíblico-teológica, mas existe o perigo de o pregador não se referenciar pela Bíblia e não falar algo que realmente alimente os ouvintes, se ater a assuntos do cotidiano, lidos em jornais ou mesmo experiências pessoais.
Espera-se do pregador um sermão estruturado com uma introdução feita sempre com oração e leitura do texto bíblico, na sequência o que é chamado de exórdio, quando o pregador atrairá a atenção dos ouvintes. Se o pregador não for eficiente na parte do exórdio, dificilmente terá a atenção das pessoas até a conclusão da pregação. Em seguida se faz a explicação do texto bíblico e então se conclui a introdução com a proposição que é a proposta do sermão.
Após a introdução o sermão segue com o seu corpo argumentativo, quando as questões abordadas na proposição serão minuciosamente respondidas e a isso chamamos de desenvolvimento.
Outra parte importante para dar fluência e clareza ao discurso é a frase de transição porque ajuda a subdividir o desenvolvimento para se obter uma compreensão mais profunda. Essas frases não precisam ser enunciadas pelo pregador, mas o ajudarão a organizar o sermão.
A conclusão ou peroração deve ser cuidadosamente preparada para que os ouvintes entendam o objetivo da pregação, “a moral da história”, uma argumentação que responde as questões abordadas durante a proposição e o desenvolvimento. Outra parte importante na conclusão é uma breve recapitulação e a apresentação de desafios que sejam relevantes para os ouvintes.
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3 de nov. de 2020
A importância da Teologia para os pastores
Para pastorear pessoas é fundamental estar habilitado, pois apenas vontade e amor não serão suficientes quando for necessário tomar decisões em momentos difíceis como, por exemplo, confrontar pessoas, situações de injustiça, erros de seus pares também pastores, entre outros posicionamentos que irão requerer autoridade e assertividade.
Há situações no cotidiano que não permitirão voltar atrás, ignorar, não dizer nada, não aconselhar, se isentar, para tanto, estar preparado é fundamental no ministério pastoral. A práxis pastoral passa pela teologia que abarca as mais diversas abordagens possíveis e necessárias no preparo de líderes respeitáveis, relevantes, interessantes e consequentemente bem sucedidos em seus trabalhos.
No momento de aconselhar os membros de sua comunidade que estão com problemas pessoais o pastor bem formado em teologia terá, por exemplo, conhecimentos sobre os estudos de Sigmund Freud e Viktor Frankl.
Caso precise refletir sobre questões existencialistas poderá dialogar baseando-se no que aprendeu sobre Soren Kierkegaard e Martin Heidegger.
O pastor que abraçou a teologia também conhece a história da Igreja, sabe bem sobre os erros e acertos dos pais da Igreja, por exemplo, as ideias de Irineu de Lion e Eusébio de Cesareia que fundamentaram a preeminência do Vaticano, ou ainda os acertos de Agostinho de Hipona ao resgatar o assunto da Graça Salvadora. Enfim, esse pastor ciente dificilmente será conduzido pelo caminho errado.
A Teologia, por meio da exegese, oferece instrumentos para aprimorar a análise e compreensão dos textos bíblicos, oferece também conhecimentos sobre hermenêutica e conduzem o aspirante a pastor pela trilha para conseguir comunicar as verdades bíblicas de maneira clara, compreensível, correta e livre dos vícios de linguagem, da falta de reflexão, dos equívocos de interpretação, do anacronismo, entre tantos outros riscos que corremos ao aceitarmos a responsabilidade de fazer um sermão em uma de nossas comunidades.
Porém, um ministério pastoral equipado e fortalecido por esta geração deve ter um fundamento bíblico e teológico adequado. A metodologia sem uma base adequada é perigosa e, em última análise, sem poder. Em outras palavras, seria melhor que entendêssemos a nossa identidade, antes de começarmos a lidar com o trabalho da Igreja e do ministério no mundo atual. Não nos atrevemos a estabelecer funções pastorais fundamentadas em modelos humanos, pois realizaremos pouco para Deus. (FISHER, 1999, p.8)
A especialização para o pastor passa pela Teologia, pois não adiantará lançar-se ao desafio sem conhecer corretamente as escrituras e toda a compreensão dela ao longo de nossa história. Seria semelhante ao médico que ignorasse as mais recentes descobertas da medicina e ainda dependesse de tentativa e erro para descobrir quais as melhores práticas em sua função.
Também não é apenas um trabalho de oratória, facilidade de falar em público, pois para falar com propriedade é necessário refletir e compreender assuntos complexos e saber quais foram as conclusões de homens capazes do passado, versados nos idiomas originais dos textos bíblicos.
Estratégias de marketing não serão a base de nenhuma Igreja, pode ser útil como uma ferramenta, mas não será isso que definirá se uma Igreja é saudável, fiel e que “produz um bom fruto”, ou seja, relevante em nossa sociedade.
É por conhecerem pouco sobre Teologia e consequentemente sobre a função pastoral que pastores despreparados cometem uma série de erros primários ao se importarem com questões que não são de sua responsabilidade, quando intervém, por exemplo, em decisões pessoais de membros de suas comunidades, quando exigem determinado padrão de vestimenta e até mesmo corte de cabelo e barba, comportando-se de maneira semelhante a ditadores de terras distantes.
Sobre a falácia de que o conhecimento é prejudicial a fé, afirmo que ela vai contra todo o esforço evangelístico desde a Grande Comissão, acreditar por ignorância é uma prisão e sobre isso “Jesus dizia, pois, aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente, sereis meus discípulos e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:31-32) O saber também não deve ser compreendido como soberba ou arrogância, citar bons teólogos do passado não deve ser visto com maus olhos, ao contrário, precisamos valorizar todo o desenvolvimento cristão nesses cerca de dois mil anos de labor teológico.
30 de out. de 2020
A Igreja e a Missão são inseparáveis
Somos a Igreja quando assumimos a responsabilidade confiada a nós como Igreja, tal como a perícope no Evangelho de Mateus, capítulo 28, versículo de 18 a 20:
E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos. Amém!
As últimas instruções de Jesus aos seus discípulos continuam sendo nossas últimas instruções e assim devemos proceder, anunciando as verdades sagradas por toda a Terra até o fim. Uma primeira observação é de que a compreensão da Grande Comissão esteve incorreta por um longo período de tempo enquanto se pensava que essa missão era estritamente transcultural, hoje temos a clareza de que mesmo no local onde estamos fixados, seja onde for, assim que nos tornamos Igreja, ou seja, parte do Corpo de Cristo, automaticamente estamos em meio a Missão. A questão é se vamos cumprir a missão ou não.
Segundo Blauw (1966) a Igreja é testemunha de Cristo no mundo, ou então não será Igreja obediente a Cristo, trata-se da natureza missionária da Igreja, e isto deve ser feito sem ter como base os confins da Terra, sendo que o componente geográfico não é determinante para a Missão, esse foi um pensamento muito forte nos séculos XVIII e XIX.
Compreendemos que o foco na missão transcultural teve e tem uma importância vital para a Igreja, precisamente, não podemos abandonar a missão transcultural, pois seria um novo erro, a Missão deve ser completa, a questão geográfica não deve ser vista como fator restritivo para a Missão, só assim será um componente legítimo.
Existem muitos obstáculos para a Missão transcultural, tais como a opressão islâmica que não permite a conversão ao Cristianismo, ou ainda grupos radicais como Boko Haran que perseguem vilarejos cristãos na África Subsaariana, ateiam fogo em Igrejas e sequestram cristãos. Em países asiáticos é comum os governos restringirem a pregação do Evangelho, proibirem a leitura da Bíblia inteira ou parte dela, por motivos políticos via ideais do Comunismo Marxista ou por razões religiosas e culturais.
Outra questão é o abandono das localidades onde a Igreja já está instalada, sem prestar qualquer auxílio à comunidade, não fazendo qualquer diferença em meio a suas atividades corriqueiras, repetitivas e sem impacto na sociedade. É um perigo muito grande a comunidade de fé estar à margem da sociedade, atribuindo para si um status de separada por ser sagrada, deixando de ser sal e luz, enfim deixando de ser a Igreja.
Não importa se deixamos de atuar na missão no contexto local ou se deixamos de atuar nas missões transculturais. “Uma motivação baseada na autoproteção não nos conduzirá à Grande Comissão, mas sim a uma grande omissão (Borges, 2007)”.
A princípio parece fácil a ação de fazer a diferença em sua cidade, seu bairro, local onde muitas pessoas te conhecem, mas a realidade é bem diferente, pois onde te conhecem também te julgarão pelo seu passado, podem inclusive não te respeitar por ações de antes de se posicionar como cristão, ou mesmo por ações quando já se apresentava como cristão, afinal de contas, não somos perfeitos.
A falta de atenção na localidade ou um trabalho pouco relevante podem tornar um local outrora cheio de cristãos e de pessoas em recuperação num local sem qualquer fonte de esperança, compaixão ou acolhimento, um lugar sem fé, que dependerá novamente de uma missão transcultural vinda de longe para resgatar os valores e as virtudes cristãs. Seja na missão transcultural ou numa ação local, a verdade é que precisamos nos expor e isso é desconfortável, perigoso, desgastante, e ao mesmo tempo é o que nos faz sermos Igreja.
28 de out. de 2020
A Bíblia fazendo parte de nossas vidas em comunidade
A leitura da Bíblia é a principal diferença entre cristãos e não cristãos, pois não poderíamos nos diferenciar sem o nosso instrumento de fé. No entanto é importante nos aproximarmos dos textos da maneira correta.
Há comunidades em que ao citar às escrituras sagradas recitando seus textos e indicando sua localização por livro, capítulo e versículo, você é bem visto. Essa não pode ser a nossa única motivação para lermos a bíblia.
A Bíblia deve fazer parte do nosso cotidiano, na medida em que nossas atitudes refletem o conhecimento sobre os ensinamentos contidos nela.
Deixar a bíblia aberta em uma página como um item de decoração não é errado, mas não a ler é um grande desperdício, no entanto, dizer frases como “na Coreia do Norte não tem Bíblias, então vamos valorizar as nossas” também não fomentará a leitura da Bíblia. Para isso precisamos compartilhar a bíblia em nossa transformação pessoal, em nossa sabedoria para tomarmos decisões, nosso ânimo diante das adversidades, entre tantas outras diferenças que a Palavra de Deus faz na vida dos cristãos.
É importante pensarmos que o Cânon foi definido para ser um dos pilares que sustentariam a ortodoxia e impediriam as heresias, mas mesmo assim as lideranças religiosas do passado, especificamente durante a Idade Média, tomavam suas decisões ignorando completamente os textos sagrados e se comportavam como se tivessem mais autoridade do que eles, por isso uma das cinco Solas foi fundamental para a Reforma Protestante de 1517, Sola Escriptura, retoma o assunto da importância da Bíblia como luz para nossos caminhos.
Outro erro terrível da Idade Média foi aprisionar a Bíblia no Latim, idioma que passou a ser inacessível, assim como já eram inacessíveis o grego e o hebraico, outras línguas nas quais já havia traduções dos textos, mas também incompreensíveis. As traduções para o inglês dos pré-reformadores John Wyclif e William Tindale foram cruciais para nosso avanço assim como a tradução de Martinho Lutero para o alemão.
Atualmente em nossas comunidades ainda há a barreira da dificuldade de interpretação de texto, além de em certas versões ser impossível para muitos a compreensão de termos pouco verbalizados ou ainda outros arcaicos.
Avançamos muito com novas versões com vocábulos mais simples e por isso o acesso à Bíblia está se tornando cada vez mais fácil, no entanto é necessário trazermos a Bíblia para o cotidiano, libertá-la de ser um conteúdo exclusivamente litúrgico ou para ser estudada academicamente.
A Bíblia pode e deve ser assunto em nossas casas, nos nossos trabalhos, escola, com vizinhos e nessa troca de informações sobre a Bíblia certamente todos nós ganharemos, primeiro pelo conteúdo que é transformador e também por estarmos reforçando laços de amizade e estabelecermos uma espécie de discipulado mutuo, um companheirismo entre os cristão tendo como vínculo principal a Palavra de Deus.
Acerca da acessibilidade das escrituras hoje podemos ler a bíblia em nossos smartphones com consultas ao dicionário, localização de textos por pesquisa de termos, ouvir o áudio ao invés de lermos e ainda podemos compartilhar os textos facilmente em nossas mídias sociais. Certamente os pré-reformadores não imaginavam que um dia chegaríamos a esse patamar, eles não imaginavam sequer a invenção da imprensa no século XV que possibilitou a produção de bíblias aos milhares, pois antes da imprensa eram necessários copistas para fazerem cada manuscrito um por um.
Em nossas comunidades é comum a restrição ao uso do celular como forma de ler a bíblia para prevenir-se de distrações e descontrole do ambiente de culto, mas o momento é o de fomentarmos a leitura e o compartilhamento das escrituras sagradas em todas as mídias, especialmente na mídia mais utilizada em toda a Terra, o celular. De tempos em tempos, menos barreiras e mais possibilidades para a Bíblia.
26 de out. de 2020
A quebra de paradígmas e a continuidade da Missão
A Missão evangelística está fortemente vinculada ao texto de Mateus 28:19-20 ”Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado” e como podemos ler nestas palavras de Jesus, quem os enviou, não há qualquer menção à conquista de outros povos pela força, nem qualquer recriminação aos hábitos culturais de outros povos, o que Jesus ordena é que seja ensinado a maneira de se viver conforme o exemplo que ele lhes mostrara durante o seu tempo de convivência, entre dois e três anos de discipulado. A ordem é que seus seguidores façam novos discípulos, o ensino então deve ser por meio do discipulado, com convivência e não com preconceitos e não aceitação das diferenças.
É importante pensarmos que os judeus que foram os primeiros a receber o Evangelho precisaram mudar sua forma de pensar sobre a fé judaica, aceitando novos limites baseados em princípios muito básicos como o Shema, por exemplo, quando Jesus menciona o texto de Deuteronômio 6:5 para destacá-lo como mandamento mais importante “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder” e continua acrescentando “E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes” (Marcos 12:29-31) Numa quebra de paradigmas mostra que a essência da lei é o amor, primeiro a Deus e depois para toda a humanidade.
Assim também nós precisamos impactar as outras culturas com a mensagem do amor em primeiro lugar a Deus, para que deixem suas práticas religiosas oferecidas a outros deuses e passem a oferecer adoração ao único Deus verdadeiro, e de semelhante forma precisamos ensiná-los a fazer o melhor pelo próximo, deixando todas as práticas que fazem mal aos demais ou a eles mesmos e isso significa aprender com cada cultura detalhes sobre suas práticas afim de sermos capazes de instruí-los e também capacitá-los para que possam julgar por si mesmos se tais práticas devem ser abandonadas ou não, evitando assim qualquer forma de dependência ou fragilidade em uma religião superficial.
A transformação de cada indivíduo precisa ser voluntária, nunca por força ou violência e nem por constrangimento cultural, hostilizando práticas diferentes sejam elas as artes ou formas de expressão ou comportamentos estranhos aos nossos, o essencial não é o exterior e sim o interior. Se o amor for o crivo, assim como a Palavra de Deus, não haverá desvirtuação da Missão confiada a nós.
A missão primordial é a de Deus, pois foi ele quem mandou seus profetas, seu Filho, seu Espírito. Destas missões, a do Filho é central, pois foi o auge do ministério dos profetas e incluiu em si, com clímax, o envio do Espírito. Agora, o Filho envia – como ele próprio foi enviado. Mesmo durante seu ministério público, ele enviou primeiro os apóstolos, e então os setenta como um tipo de extensão de sua própria pregação, ensino e ministério de cura. Em seguida, após sua morte e ressurreição, ele expandiu o alcance da missão ao incluir todos que o chamam de Senhor e chamam a si mesmos de seus discípulos. Outros estavam presentes com os 12 quando a grande comissão foi dada. Por isso, não podemos restringir sua aplicação aos apóstolos. (Stott, 2010, p.27)
Somos enviados com a missão de anunciarmos o amor de Deus e a entrega expiatória de seu Cristo e orarmos com imposição de mãos para que recebam o Espírito Santo, somos nós agora os responsáveis pela quebra de paradigmas e pela continuidade da obra missionária, treino e envio de mais discípulos de todas e para todas as nações.
23 de out. de 2020
O desafio para os pastores no século XXI
Ao refletirmos sobre os desafios para os pastores do século XXI nos deparamos com o cenário desfavorável, em parte devido posturas inadequadas de pastores que cometeram seus erros como qualquer ser humano, mas que infelizmente suas falhas são expostas para todos enquanto muito mais líderes fizeram um trabalho exemplar, mas suas histórias são desconhecidas do grande público e seus feitos em meio a tanto sacrifício são esquecidos. Isso ocorre porque a sociedade em geral criou certa resistência à religião e aos assuntos que dizem respeito ao além, post mortem, ao etéreo, imaterial. É uma sociedade materialista, impaciente, que exige resposta rápida e que escolhe seus conteúdos em poucos cliques.
Segundo “Fisher (1999) o cenário é de crise no ministério pastoral, pois as comunidades nas quais os pastores trabalham já não valorizam mais o empenho, assim como a sociedade já não respeita mais a Igreja e o ministério pastoral como antigamente. Os pastores prestam um serviço para um mundo que já não o deseja mais. Pastores são um anacronismo em meio a uma cultura secular. Até os membros das Igrejas estranham seus pastores”.
Esse cenário somado ao desgaste emocional que os pastores naturalmente sofreriam por lidar com pessoas e as pressões em liderar e administrar suas congregações têm refletido de maneira extremamente negativa e as notícias que temos conhecimento são de pastores desistindo do ministério, sofrendo com depressão e até mesmo recorrendo ao suicídio. Um problema que precisamos enfrentar de olhos abertos e sabendo diferenciar os casos de doenças crônicas devido problemas puramente biológicos como distúrbios mentais entre os casos motivados por situações de stress e falta de assistência.
O Livro o Monge e o Executivo, “Hunter (1998), conta a história de líderes que se reúnem para conversar sobre uma boa liderança e em certo diálogo é retratado o perfil ideal de um líder para a atualidade, dentre as características estão a honestidade, confiabilidade, o bom exemplo, cuidados, compromisso, ser um bom ouvinte, tratar as pessoas com respeito, encorajar, ter uma atitude positiva e gostar de estar com pessoas, ainda nesse diálogo um líder religioso afirma que se não for dessa forma não será possível manter a sua congregação unida a ele.”
Essas características são admiráveis e a pessoa com tais atributos certamente terá uma grande quantidade de pessoas à sua volta e dispostas a segui-la. De outra forma, se apoiando em hierarquias de instituições, argumentos como o de que é um “ungido do Senhor”, apelos emocionais ou manipulação, as pessoas simplesmente se vão na expectativa de seguir alguém melhor e não é de surpreender que possam encontrar alguém melhor preparado, mais admirável, no entanto, não perfeitos. Não podemos exigir dos pastores perfeição, assim como os pastores não devem exigir de seus liderados perfeição. Enfim são apenas pessoas, mas todos nós somos capazes de observar quem está se esforçando para tonar-se uma pessoa melhor e quem simplesmente não faz questão.
Não significa que a receita bíblica esteja em desuso, significa que uma releitura para a atualidade é necessária além de estar conforme Primeira Timóteo três, versículos de um a sete:
Esta é uma palavra fiel: Se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja. Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento; que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia (porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?); não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo. Convém, também, que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em afronta e no laço do diabo.
Numa sociedade em que a informação e os conteúdos estão circulando tão rápida e livremente é praticamente impossível conter a debandada de pessoas de instituições retrogradas e limitadas. Ao passo em que Igrejas tradicionais, conservadoras e indispostas para o diálogo se esvaziam, outras Igrejas sob lideranças atualizadas, melhor preparadas e menos engessadas estão lotadas e precisando fazer rodízios em suas reuniões, pois de outra forma não comportariam o número de membros em suas comunidades.
21 de out. de 2020
A importância da Homilética
Embora o sermão seja historicamente considerado a parte mais importante da liturgia nas celebrações em comunidade, o zelo na preparação, em boa parte das vezes por falta de preparo das lideranças, têm sido negligenciados à medida que outras atividades estão tomando a atenção dos pregadores. Em outros casos ao delegarem a atividade para pessoas menos experientes ou simplesmente despreparadas, ocasionalmente ocorrem reuniões em que as pessoas poderão ficar frustradas pela experiência negativa.
Muitas pessoas citam que o culto deve ser oferecido a Deus e tudo deve ser pensado como um serviço a Ele, mas há de ser considerada a experiência do ouvinte, sendo que muitas vezes pode estar trocando seu tempo que seria de qualidade em família, estudos, sono ou mesmo outras atividades, lembrando ainda do deslocamento e o investimento financeiro despendido para se congregar e se ouvir algo especial.
A homilética é “entendida como a disciplina que se ocupa da ciência e da arte da pregação de sermões religiosos: [...] ciência, porque estuda criteriosamente os processos do discurso religioso, e arte porque aplica-se às suas técnicas” (RAMOS, 2012, p. 28).
As principais ferramentas à disposição do homileta em seu trabalho de preparação da mensagem são a exegese, a hermenêutica e a retórica. Segundo Ramos (2012, p. 98) A hermenêutica, que tem por objetivo “interpretar a Bíblia para o presente”, do grego hermeneuein, também significa “interpretar e ocupa-se mais particularmente dos princípios que regem a interpretação dos textos”, ao passo que a exegese “descreve mais especificamente as etapas ou os passos que cabem dar em sua interpretação”. Esse trabalho precisa ser feito a fim de se compreender de maneira correta o relato bíblico ou extrabíblico evitando assim compreensões equivocadas, anacrônicas ou distorções do conteúdo e se elaborar a melhor forma de se comunicar a mensagem para que os ouvintes possam também compreender os conteúdos. A retórica deve ser proporcional à realidade do ouvinte, pois de nada valerão belas palavras que não serão compreendidas. A tarefa do homileta deve ser comunicar e não simplesmente fazer demonstrações de conhecimento, pois a finalidade é compartilhar e não reter o conhecimento.
19 de out. de 2020
É preciso autoconhecimento e conhecimento do outro para promovermos a resiliência
O aconselhamento pastoral não deve ser semelhante ao processo terapêutico e científico que trata da pessoa assistida como um sintoma, uma patologia, um paciente assim como outros, segundo Rogers (2001) de uma forma pessoal e num relacionamento entre o aconselhador e a pessoa que está com alguma dificuldade, é preciso confiança, nesse processo o conselheiro não é apenas expectador, e também não é um solucionador, é alguém para ouvir, uma outra pessoa, esse processo de crescimento interpessoal é uma forma de se aprender a viver a vida de maneira congruente, ou seja, tendo autoconhecimento, uma definição de si próprio.
No processo de autoconhecimento e de encontrar o sentido para a vida nos deparamos com situações que traumatizam e deformam os seres humanos, embora tenhamos estudos da psicanálise que apontam que tudo tem um motivo e que o ser humano em sua essência pode ser deformado e assumir características extremamente negativas devido às suas experiências traumáticas, como os estudos do pai da psicanálise Sigmund Freud, há outros estudos também da psicanálise que apontam que pessoas que passam pelos mesmos traumas são afetadas de formas diferentes. É o caso da logoterapia, desenvolvida por Viktor Frankl, um sobrevivente dos campos de concentração nazistas, tendo sido bem sucedido num trabalho que reduziu o índice de suicídio entre os jovens austríacos, a logoterapia é a terapia de sentido da vida, segundo Frankl (2007) o ser humano não está em busca de prazer e alívio, mas sim, em busca de um sentido para a vida, por isso, homens e mulheres que passaram por situações horríveis, em alguns casos sofrem com depressão e em outros permanecem saudáveis.
Resiliência é a palavra para designar a capacidade humana de se recuperar após um choque, é a possibilidade de voltar a ser quem era mesmo após uma experiência traumática. Precisamos ser resilientes e a forma oportuna de sermos resilientes é encontrarmos sentido na vida, uma pessoa com propósitos, aceitando uma missão, sabendo quem ela é por vocação e fazendo a diferença no contexto onde ela está inserida será mais resiliente do que uma pessoa sem propósitos, que não tem uma missão, sem um sentido para a vida. Em outras palavras, a resiliência não existe em si mesma, mas é o resultado de uma forma de ser e compreender a si mesmo e aos demais.
No aconselhamento pastoral podemos ajudar as pessoas a encontrarem um sentido para a vida, sua vocação, voltarem a sonhar com a realização de um trabalho que faça a diferença, voltarem a aprender, crescerem como seres humanos, ser alguém melhor, abençoadores. Essa forma de experiência deverá tornar essa pessoa mais resiliente.
O próprio pastor é resiliente devido ter encontrado um propósito, por isso tantos homens e mulheres conseguem resistir diante de tarefas que parecem humanamente impossíveis de aguentar. Eles estão agindo conforme seus sonhos, sua vocação, seu sentido para a vida, ser aqueles que cuidam dos outros.
Certamente muitos pastores não fazem ideia desse conceito e não imaginam de onde tiram forças para serem tão resilientes. Esse conhecimento é uma forma de se compreender a si mesmo e uma receita para ajudar quem está sofrendo por traumas, desesperança, passando por uma crise existencial, depressão e desejos suicidas.
Algumas pessoas tem encontrado sua missão em proteger os animais, outros são defensores dos direitos das minorias, das mulheres, pessoas em situação de moradores de rua, órfãos, idosos, os mares e biomas afetados pela humanidade, pessoas perseguidas por sua fé, enfim, há muito trabalho esperando por pessoas que precisam de sentido para suas vidas.
Podemos observar, por exemplo, os homens e mulheres que outrora eram viciados em entorpecentes, mas que agora dedicam suas vidas para ajudar pessoas que se encontram nessa situação. Pode ser que eles consigam ajudar quem está no vício por já terem passado por essa experiência traumática, mas temos a certeza de que eles se tornam mais fortes para resistir a eventuais recaídas devido sua missão de ajudar quem está preso ao vício.
A importância da resiliência para os conselheiros religiosos
A importância da resiliência no aconselhamento pastoral não pode se resumir à pessoa assistida durante o aconselhamento, a pessoa mais frágil e que precisa de apoio. É preciso pensar no todo, afinal, todos são pessoas e o pastor que se dedica a atender pessoas em situações adversas pode ser sobrecarregado pelos problemas alheios, pois um mesmo pastor pode estar lidando com dezenas de situações que exigem saúde física, psíquica e espiritual. Segundo Frankl (2007) o ser humano tem essas três dimensões que precisam estar em equilíbrio.
Essa tricotomia só poderá ser mais bem compreendida pelo conselheiro religioso, pois pessoas sem formação religiosa não poderão atender a necessidade de resolução de problemas relacionados ao esforço humano para estar em equilíbrio, por exemplo, diante do desânimo, da incerteza e insegurança ocasionados pela falta de fé. Esse é só um exemplo das diversas formas de sofrimento relacionadas à espiritualidade dos seres humanos.
O aconselhamento pastoral deve servir como uma forma de ajudar pessoas que estão precisando de direcionamento, mas também é uma forma de socorro para pessoas que podem estar correndo perigos mortais, como por exemplo, desejos suicidas. A pressão é grande sobre as pessoas que lidam com esse tipo de compulsão e patologia.
Essa pressão tende a causar transformações no conselheiro e isso não é necessariamente ruim, caso o conselheiro seja resiliente, se adapte às novas informações, se mantenha firme em suas convicções religiosas, encontre uma maneira de equilibrar as emoções e por último, mas não menos importante, cuide de sua saúde física.
O cuidado com a espiritualidade consiste em não ser inconsistente em suas resoluções, manter uma rotina de oração, leitura da Bíblia, leitura de demais literaturas que possam servir de apoio, comunhão com a família, com o grupo religiosos do qual faz parte e também a comunidade onde está inserido, sejam vizinhos, colegas de trabalho, escola ou hobbys.
A saúde psíquica da pessoa vocacionada para o aconselhamento precisa ser observada nos sintomas que significam perigo, mas também precisam ser tomados cuidados como prevenção para evitar que determinada experiência seja destrutiva, demasiadamente dolorosa ou ainda traga prejuízos em outras áreas de atuação do conselheiro, bem como, seus relacionamentos pessoais, conjugais e familiares.
Segundo dados do Instituto Schaeffer, dos Estados Unidos, 70% dos líderes religiosos lutam constantemente com a depressão, 71% estão esgotados física e mentalmente, ainda dados da pesquisa apontam que 80% dos líderes religiosos acreditam que sua função pastoral afeta negativamente suas famílias e 70% dizem não ter um amigo próximo.
Sem amigos, pressionados pelas obrigações familiares e preocupado com todos os membros de sua comunidade e seus familiares, lidando com enfermidades, situações de vulnerabilidade social, diante de situações traumáticas, lidando com os egos e conflitos internos, além é claro do aconselhamento pastoral, ser pastor é um trabalho perigoso.
Resiliência é vital para os líderes religiosos e a tarefa do aconselhamento pastoral deve se estender também ao conselheiro por meio de redes de apoio, um conselheiro para conselheiros, um ouvinte para ouvintes, um “ombro amigo” para os “ombros amigos”, um apoiador para os apoiadores.
Há uma cultura de se ignorar os sofrimentos dos pastores e em alguns círculos o pastor que se atrever a fazer queixas será malvisto. É um problema porque impede muitos conselheiros dedicados e que já ajudaram tantas outras pessoas a suportar as suas cargas e que agora quando estão debilitados são abandonados à própria sorte. Os líderes religiosos sofrem pela falta de empatia.
Toda essa falta de consideração com os pastores e conselheiros religiosos em geral, no entanto, não afetam sua disposição para os cuidados pastorais, essa característica está ligada ao que dá sentido às suas vidas, seu propósito, sua vocação, que é o cuidados dos outros.
Segundo a sistematização de Viktor Frankl, chamada de logoterapia, ao analisar o comportamento de pessoas que diante de situações horrendas ficavam deprimidas e/ou se suicidavam, enquanto outras se mantinham firmes em suas resoluções, constatou que o interesse principal do ser humano não é encontrar o prazer ou aliviar a dor, mas encontrar um sentido para a vida (Guia de Estudos, 2º Semestre de 2017, p.68).
Embora estejamos alarmados com o crescente número de líderes religiosos que cedem diante das pressões e se suicidam, podemos afirmar que são as melhores pessoas para aconselharem e cuidarem de outros, pois encontraram um propósito e agora podem ajudar pessoas em crise a também encontrarem seu propósito.
Nosso trabalho agora é de conscientização de que pastores e pastoras são apenas seres humanos e também precisam de apoio e compreensão enquanto lidam diariamente para serem resilientes e não se deixarem deformar diante de toda a pressão que sofrem.
15 de out. de 2020
O voto de pobreza e o dom de ser generoso
O desapego aos bens materiais ensinado por Jesus de Nazaré é uma inovação religiosa diante da história das religiões que geralmente pregam o acúmulo de riquezas como uma dádiva divina. Nas palavras do messias Jesus Cristo “não devemos juntar tesouro na terra, onde tudo pode ser perdido, ao contrário, devemos juntar tesouros na eternidade, é muito melhor ter o coração na eternidade e não se deixar corromper pela corrupção terrena (Mateus 6:19-22).
Mediante esse ensinamento os discípulos e a Igreja do primeiro século dedicaram-se a investir seus bens materiais para a manutenção das comunidades cristãs, assistência aos órfãos e às viúvas e em prol do avanço das missões evangelísticas, num modelo exemplar de desapego aos bens materiais. Houve também excessos, por exemplo, pessoas que para aparentar o desapego aos bens materiais fingiam que estavam doando tudo o que tinham quando na verdade estavam retendo parte, numa mostra do potencial para a deturpação do princípio do desapego enquanto ostentação e orgulho de uma aparente piedade.
No século IV com o fim da perseguição religiosa imposta pelos romanos, a construção de templos suntuosos e a profissionalização dos religiosos o desapego deixou de ser uma característica da Igreja, agora uma instituição, ao contrário, acumuladora de riquezas terrenas. Nesse contexto de ignorância do ensino messiânico e da forma de ser igreja do primeiro século, tanto a Igreja como as sociedades cristãs europeias se desenvolveram sem observar a injustiça social e o abuso cometido pelos detentores das riquezas. Assim, no século XII, o monge São Francisco, em Assis, começa um movimento pacífico de enfrentamento às injustiças cometidas pelas elites de sua época, recusando qualquer vínculo aos negócios terrenos, numa atitude de contemplação e dedicação a vida religiosa.
Esse modo de ser franciscano era subsidiado pelos cidadãos europeus que observando a dedicação dos monges faziam ofertas para o sustento das suas obras. Os monges por sua vez não acumulavam riquezas, não possuíam terras e se dedicavam a evangelização.
No século XVI, outro movimento, a Companhia de Jesus, tendo entre seus fundadores o Santo Inácio de Loyola, começou também um trabalho de expansão da fé católica. Esses chamados Jesuítas, também tinham entre seus valores o voto de pobreza e tal como os franciscanos se mantinham com as esmolas dos fiéis.
Durante o período de colonização do Brasil, ambas as missões trabalhavam entre os colonos e os nativos, no entanto, não havia cidadãos abastados para sustentar o avanço das missões e como todos os indígenas deveriam ser ensinados o investimento necessário era alto.
Os jesuítas para resolverem o problema foram pragmáticos, não rejeitaram a oferta de mão de obra escrava e acumularam muitos escravos cedidos pela Coroa Portuguesa. Também não seguiram as regras dos fundadores da ordem, de se absterem dos negócios e viverem das ofertas e passaram a lavrar a terra e possuir animais para comércio. Decidiram deixar de lado um dos valores dos fundadores da ordem conforme as palavras do Padre Manoel da Nobrega “E temo que fosse esta grande invenção do inimigo vestir-se de santa pobreza para impedir a salvação de muitas almas” (Nóbrega, 1955: 393).
Os franciscanos foram rígidos e mantém até a atualidade o prestígio do voto de pobreza.
Para nós, religiosos do século XXI, o voto de pobreza é romantizado por alguns, ridicularizado por outros e pouco compreendido pela maioria.
As sociedades da atualidade, cristãs ou não, no ocidente voltaram a vincular o acúmulo de riquezas à benção divina e como se Cristo não tivesse dito nada a respeito do assunto, as Igrejas, não todas, simplesmente ignoram o texto e ensinam o contrário, enquanto constroem templos suntuosos e adquirem negócios em rádios, emissoras de Televisão e outros tipos de comércio.
Se fosse em prol do ensino do Evangelho, para alcançar os perdidos em todos os locais mais remotos da Terra, ou para caridade atendendo população em situação de rua, ajudando órfãos, viúvas, caridade em geral ou investimentos em saúde como nos casos das Santas Casas de Misericórdia, se fosse qualquer um desses motivos poderíamos alegar certo pragmatismo por parte das lideranças religiosas, mas a verdade é que não estão pensando no próximo, ou na expansão do Evangelho. Infelizmente são pastores de si mesmos que há tempos deixaram de se importar com o tesouro nos céus e que agora trabalham para construir fortuna terrena.
No trecho a seguir, extraído do livro do Reverendo Augusto Nicodemos, O que estão fazendo com a Igreja? ao tratar do assunto da falta de fé, logo a abordagem se torna o problema da real motivação dos líderes religiosos, riqueza terrena.
Tive amigos que eram membros de uma igreja cuja o pastor eu desconfiava que fosse incrédulo. Perguntando-lhes como eram as pregações, descobri que o problema não era o que o pastor dizia, mas o que ele deixava de dizer, os temas que ele evitava, os assuntos que nunca mencionava, como a ressurreição de Cristo, a infalibilidade das Escrituras. a veracidade e confiabilidade da narrativa bíblica, o poder do Espírito para regenerar a natureza humana pecaminosa. a morte vicária de Cristo, a realidade da tentação e da luta cristã. Havia aprendido a sobreviver dessa maneira, evitando matérias de fé e pregando aquilo que um rabino, mestre espírita ou líder muçulmano também pregaria: a honestidade, o amor ao próximo, o voto pelo desarmamento. Um de meus filhos leu o rascunho deste capítulo e logo me perguntou: "Papai, por que alguém gostaria de ser pastor se não tem Fé? Não tem uma maneira mais fácil de ganhar dinheiro?". Pois é, o pior é que não tem. Dentro da igreja, tais pastores são vistos como intelectuais respeitáveis para questionarem "cientificamente" algumas doutrinas, mas o que seriam fora dela? Nada. Apenas mais alguns incrédulos no mundo. (Nicodemos, 2008, p. 21)
Pessoas que tem fé abrem mão de suas riquezas, se sacrificam com alegria e por julgarem necessário podem decidir por uma vida de desapego, investindo seus bens financeiros para ajudar missionários ou ajudarem suas comunidades de outras formas, mas sempre voluntariamente, com muita alegria e generosidade.
A reação mais comum diante desse tipo de decisão é sentirmos pena da pessoa por estar se desfazendo de seus bens. Podemos até questionar se realmente é necessário se desfazer de tudo. Certo ceticismo pode ser saudável para a Igreja, pois não é sábio aceitar tudo sem questionar. Será mais correto se quando testemunharmos o contrário, as pessoas acumulando riquezas terrenas de maneira desordenada, sem honestidade, vendendo objetos supostamente sagrados, num estelionato descarado, dessas pessoas sim, sintamos pena, pois elas perderam a fé e são motivadas exclusivamente pelos ganhos terrenos.
13 de out. de 2020
O radicalismo dos Franciscanos, o pragmatismo dos Jesuítas e a ganância atual
Um pastor pobre chamado Hans Böhm, em Nicklashauen, no sul da Alemanha, no ano de 1476, disse “Os bispos, príncipes, condes e cavaleiros deveriam ter permissão para possuir somente tanto quanto o povo em geral. Virá o dia em que também eles terão de ganhar a vida trabalhando” (Gonzales, 2011), esse dia ainda não chegou, mas podemos observar no período anterior a Reforma Protestante de 1517 o sentimento de indignação latente.
Ao observarmos a maneira como as Igrejas do Brasil no século XXI estão construindo suas fortunas e transformando seus líderes em novos ricos podemos imaginar que isso é uma novidade. A ideia de barganha entre o ofertante e sua divindade adorada, também incorretamente, nos parece recente. A novidade, no entanto, consiste no fato de haver inúmeras instituições novas com a mesma finalidade, o enriquecimento. Seu contraponto, o pensamento de que é correto repartir não surgiu na atualidade como podemos observar no provérbio israelita “O que dá ao pobre não terá necessidade, mas o que esconde os olhos terá muitas maldições” (Provérbios 28:27).
Segundo Joyce Meyer, “os líderes religiosos podem estar cercados de pessoas com desejos similares ao de Judas, apegadas ao dinheiro, podendo ser induzidas ao erro” (Meyer, 2006). Concordo com o pensamento da autora, acrescento ainda que muitos líderes na atualidade podem ter o coração com a pré-disposição para o enriquecimento ilícito, o abuso dos incautos e até mesmo cometer crimes como evasão de divisas e sonegação de impostos. Tudo isso não está oculto, de fato, na atualidade impera uma espécie de ostentação das riquezas das igrejas, até mesmo nas igrejas em que ocorreram denúncias de irregularidades e a consequente prisão de seus líderes.
No século XII o monge que ficou conhecido como São Francisco de Assis começou o movimento de repúdio às injustiças sociais tendo como bandeira principal, além da castidade e da contemplação, o voto de pobreza. Vista na atualidade como uma espécie de demonização das riquezas, o voto de pobreza e seus adeptos são incompreendidos e constantemente repelidos com a observação de que grandes homens piedosos possuíam muitas posses, o que é verdade, mas omite-se o problema do apego aos bens materiais em detrimento de uma vida honesta e dedicada à comunhão e o repartir do pão, características que devem ser marcantes na vida de um cristão.
Outro movimento, datado do século XVI, fundado por outro Padre conhecido como Inácio de Loyola, a Companhia de Jesus, também tinha entre suas regras a dependência das doações dos fiéis e dentre suas formas de obter recursos financeiros estava a possibilidade de receberem heranças, o que rendeu a esse grupo, a má fama de serem caçadores de heranças para enriquecerem. É certo que os seus fundadores tinham o desejo de resistir firmemente à tentação de enriquecer às custas da fé alheia, mas os representantes das gerações seguintes nem sempre concordaram com as regras.
Na época do Brasil Colônia, por exemplo, a Companhia de Jesus enquanto tratava de catequizar os indígenas não conseguia obter todos os recursos necessários por meio das doações dos poucos fiéis presentes na colônia e por isso seus membros, chamados jesuítas, liderados pelo Padre Manoel da Nobrega, decidiram adquirir terras, escravos e com isso produzir riquezas. (Nóbrega, 1955: 121), contrariando o ideal Inaciano de pobreza total tanto dos monges como da instituição (Santo Inácio de Loyola, 2004, n.º 565).
Nessa mesma época vozes se levantaram como crítica ao modo de operar dos Jesuítas, padres vindos em missão como Luís da Grã (Nóbrega, 1955: 267), Francisco de Borja (Leite, 1938: 176), Miguel Garcia e Gonçalo Leite (Le i te, 1938: 227). Todos Padres contrários ao modus operandi da Companhia de Jesus, contrários ao acúmulo de escravos, terras e gado, críticos que foram todos chamados de volta para a Europa sob a alegação de não adaptação, numa clara demonstração de que esse posicionamento não agradava a liderança da Igreja e tampouco os interesses da Coroa Portuguesa.
É possível aprendermos muito com o exemplo dos nossos antepassados, desde o bom senso de zelarmos pelos recursos que temos a nossa disposição para ajudar o próximo, assim como não nos deixarmos dominar pelo sentimento de posse e dependência dos recursos financeiros cedendo à tentação de sermos desonestos e em especial sem hesitar nos posicionarmos como vozes contra os abusos das lideranças religiosas em nosso tempo.
A falência pessoal e comunitária pela falta de propósito
Um dos motivos para a falência pessoal na atualidade é a falta de propósito, não saber qual é sua vocação e assim não ter um sentido para sua vida. Esse fenômeno chamado crise existencial afeta o ser humano especialmente quando ele não tem mais uma urgência ou emergência pessoal ou comunitária, por exemplo, uma crise financeira, enfermidade, problemas familiares, violência, entre outros. Todos esses infortúnios são um oponente contra o qual lutamos bravamente até que não precisemos mais, então, quando não se tem mais que sobreviver, começa a crise existencial.
Na história da Igreja e do pensamento cristão não é muito diferente, pois enquanto era perseguida por judeus e romanos nos seus três primeiros séculos resistia bravamente enquanto anunciava as maravilhas de Deus onde estivesse presente. Quando a perseguição findou após o Édito de Milão no século IV a Igreja começou a se conformar ao seu mundo, e assim foi durante a Idade Média, com suas missões colonialistas, exploratórias e políticas.
Após a Reforma Protestante de 1517 a Europa experimentou novamente o sabor e a iluminação de uma Igreja novamente centrada em Cristo, não perfeita, ainda cheia de subversões, mas voltando para o prumo, a vocação, propósito e chamado para o qual fora eleita.
Segundo a análise exegética de Blauw (1966), do texto da Primeira Epístola do Apóstolo Pedro, no capítulo dois, nos versículos nove e 10, Deus chamou a Igreja, que somos todos nós cristãos de todos os séculos, das trevas, em sua desordem e falta de propósito, para sua luz, e nos deu títulos, tais como sacerdócio real, geração eleita, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, cujo propósito é proclamar as grandezas Dele, sendo assim, quando aqueles que se consideram Igreja não cumprem a Missão, automaticamente perdem seus títulos e não devem mais considerarem-se povo de propriedade exclusiva de Deus, sacerdócio real, geração eleita e nação santa.
A Igreja atual está parcialmente moldada conforme os anseios da sociedade, ganho de capital, segurança patrimonial, imediatismo e status. Mesmo denominações com trabalhos de expansão não conseguem esconder seu interesse em anunciar os seus números de templos, pessoas, arrecadações, tudo posses, tudo da Igreja. Em seus anúncios são ofertados milagres financeiros, são vendidas curas e mais bençãos sobrenaturais. Renunciaram seus títulos e não são mais povo de Deus, ainda assim acreditam que Deus pertença a eles e assim sendo o oferecem como um produto.
A Igreja passa por uma crise existencial terrível e nesse contexto muitas pessoas que não estão em busca de alento para suas aflições pessoais também não encontram nela propósitos, por isso o fenômeno chamado “desigrejados”, pessoas que não vêm sentido em congregar, não querem um produto, não estão desesperados por cura ou sucesso financeiro, mas são carentes de ouvir sobre as maravilhas de Deus e de pertencerem a Ele.
Pedro revela que Deus demonstra uma possessividade para com seu povo quando escreve: “Mas vocês são um povo escolhido, um sacerdócio real, uma nação santa, um povo pertencente a Deus” (2.9).20 Com um a referência a Oséias 2.23, Pedro declara que os leitores que, no passado “não [eram] povo”, passaram a ser chamados de “povo de Deus” (2.10), isto é, Deus lhes deu um novo nascimento. (Kistemaker, 2006, p21)
Ao pensarmos na Obra que nos foi confiada como Igreja, há uma inversão de valores, sendo que a Igreja não possui nada, assim como não possui Deus, também não possui a Missão, ao contrário, Deus possui a Igreja na medida que a Missão também possui a Igreja. Quando a Missão de Deus, Missio Dei, possui a Igreja e todo o trabalho que é executado por amor a Deus é planejado como tarefa intrínseca ao sentido de a Igreja existir, a isso podemos chamar de propósito, sem o qual não faz sentido algum congregar, pois deixamos de ser Igreja no sentido de povo de propriedade exclusiva de Deus e passamos a ser apenas igreja, no mesmo sentido do grego eklesia, apenas mais um ajuntamento.
Pedro escreve para pessoas que estavam vivas antes da destruição do templo de Jerusalém. Ele próprio um judeu, Pedro se dirige a muitos cristãos judeus e cristãos de descendência gentia. Além disso, ele fala aos crentes de todas as épocas e lugares que lêm sua epístola. Conhecendo muito bem o Antigo Testamento, Pedro aplica as palavras dessa parte das Escrituras aos seus leitores, porque ele os vê como povo escolhido por Deus. Ele toma emprestada a profecia de Isaías, que registra as palavras do Senhor: “Ao meu povo, ao meu escolhido, ao povo que formei para mim, para celebrar o meu louvor” (Is 43.20,21). Pedro, portanto, vê os crentes como corpo de Cristo, isto é, a igreja. (Kistemaker, 2006, p.126)
Nossa tarefa principal como Igreja é anunciarmos que é chegado o Reino de Deus e isso nós podemos fazer tanto por meio de textos, vídeos, áudios, por meio das artes, de maneira criativa, pela internet, pessoalmente, dentro e fora dos templos, em nossos locais de trabalho, escola, nossa comunidade, vizinhança, mas precisa ser essencialmente pelo nosso exemplo.
7 de out. de 2020
Falsos Cristãos x Os ensinamentos de Jesus Cristo
Uma reflexão sobre a falta de conhecimento sobre os ensinamentos de Jesus Cristo, mesmo entre os cristãos.
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